quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Os pés e o riacho

Era só a parte rasa do que parecia ser um arroio. Num golpe de faca, afastou a folhagem que escondia aquele pedaço de água corrente: Sim, um riacho. Que sede! Que sorte! 
Desassossegado, como era da sua natureza ser, o riacho convidava a entrar e a molhar os pés que por sua vez, queriam descansar e se envolver naquelas águas falantes.
Os pés, já um pouco cansados, sabiam da sua função: caminhar ao lado do riacho até que este se fizesse rio. Talvez caminhariam por toda a vida, os pés, ao lado do riacho. Somente. Sem chegar ao grande rio. Os pés se acovardavam diante dessa hipótese. Se acovardavam também porque temiam que suas solas não fossem tão resistentes ao ponto de suportar tal caminhada. Que covardes! Os pés sentiam muito medo, de muita coisa. 
Sentiam tanto medo que às vezes mal podiam desfrutar do prazer de caminhar ao lado de um riacho. Mas o riacho, que tinha uma sabedoria própria, disse aos pés que caminhar é da natureza de ser pé. E que é da natureza do riacho querer se fazer rio e que os rios correm soltos, impetuosos, assim como os  riachos. Disse também que onde há água, há vida. O riacho era muito sabido e sentenciou: “O homem não tem o poder de fazer parar o rio e nem o riacho. Ele corre, porque precisa correr. Ele abre caminhos, o rio. Assim como o riacho e os pés que caminham. Apenas os céus, eles sim, com suas estrelas, luas e sóis, tem o poder de fazer o rio parar de correr. Quando os céus decidem o rio seca. Fica quieto e franzino no seu leito. E aí, o rio que já não é mais rio, porque não é mais vivo, molhado e falante, nem abre caminhos,  deixa de correr sobre a terra, para se unir a ela”. Os pés então se aquietaram e puderam, finalmente, caminhar.

Grazielle
07 de outubro de 2014


O Andarilho


Enquanto caminhava por aquela estrada, o andarilho percebeu que podia ser outro. Era o amor. Des-cobriu bem ali, na linha do horizonte. Se o amor que o movia na direção de um ser-outro vinha ou era da estrada, da linha do horizonte ou de si mesmo, não sabia. Não importava também. Importava que podia ser outro! Ou, simplesmente, Ser. E se era outro, talvez outros ainda nele habitassem e assim podia ser hora um, hora outro e então seriam muitos! Isso o fortalecia. Não haveria isso de ser um só; Isso de ser só, pensava o andarilho. No entanto, na mesma estrada, esse outro que ao mesmo tempo em que já era, não conseguia ser. D e s f a l e c e u. Interrompido em si mesmo,  cansado, absorto e insone, tonto e sem sentido feito um inseto em torno de uma nesga de luz, o andarilho-caído amanhecia pesado de uma noite em que a chuva não conseguiu aplacar a aridez do solo que configurava aquela estrada. A água que escorria pelas fissuras do chão rachado daquela estrada a atingia sem no entanto penetrá-las para então nutrir a sequidão. Talvez se chovesse mais.  E mais forte. Talvez se a chuva fosse outra. Ou se o barulho da água fosse mais alto e mais forte ao ponto de atravessar e calar a voz ensurdecedora daquele silêncio escuro. Daquele silêncio que era só. Era só porque nele não havia estrada, linha do horizonte, nem amor, nem andarilho,  nem outros e porque era escuro. Antes a linha do horizonte; Agora, escuridão vazia. No olhar do andarilho, caído e iluminado pela nesga de luz que atraía o inseto que insistia, naquele olhar, o reflexo da água que escorria por entre as fissuras do chão seco. 
Era só uma forma-falida, ele então soube. E ali, mais uma vez, morreu.

Grazielle
19 de outubro de 2014

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