sexta-feira, 23 de outubro de 2015

A Menina Quebrada e minha amizade com Eliane Brum

Por GraziMonica Pansard, out. 2015. 


Conhecemo-nos em 2013, eu e Eliane. Foi um ano de intensas manifestações políticas e nesse contexto-enredo, percebi que tínhamos muito em comum. No entanto, como ser insignificante que me sei, passei sem ser notada por ela e, ambas, seguimos nossas vidas. Vez ou outra nos encontrávamos, ou melhor, eu a encontrava já que não sentia-me vista e sempre de novo, nesses nossos (des)encontros, percebia, intrigada, o quanto de mim havia nela. Só não suspeitei que durante esse tempo algo acontecia à Eliane também.

Li o artigo “ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente) do B”*  no final de setembro, às vésperas do “mês das crianças" e esse foi o momento derradeiro. Ainda não sabíamos, mas estávamos prestes a mudar o rumo das nossas trajetórias, antes separadas, para sempre. 

Voltando à coluna da Eliane, exposta em outubro deste ano no "El País". No início, não entendi o que ela queria me perturbando tanto com esse texto. Fiquei horrorizada com ele! Interrompi a leitura pelo menos três vezes, impactada com a força que tinham aquelas palavras sobre mim. Desde então ela não mais me deixou. Passei a pensar em Eliane e na sua coluna diariamente. Dormia e acordava pensando nela, atordoada com o peso e a leveza daqueles que possuem uma mente sã e que ela, sem que eu me desse conta, passava a compartilhar comigo.

Durante esse tempo, nesse último mês, era como se ela estivesse me pedindo algo, mas eu não tinha ideia do que era e isso me enlouquecia! Aí, no último fim de semana, quando estive em Curitiba sob o pretexto de assistir ao show do Los Hermanos (de “lavar a alma”, como disseram) sem que eu esperasse, lá estava ela. Não! Não no fantástico show do Los Hermanos na Pedreira Paulo Leminski. Numa livraria, o lugar onde se encontram os escritores. "A Menina Quebrada e outras colunas de Eliane Brum" (Editora Arquipélago) estava bem diante de mim, encarando-me, séria. E sem que ela precisasse proferir palavra, entendi o que estava me pedindo: Companhia. Logo a minha, que sempre soube insignificante. Nesse momento me senti importante. E gostei. Não hesitei. Não podia! Sem pensar duas vezes peguei "A menina quebrada" pelas mãos e saímos juntas da pequena livraria (a Arte & Letra Café, minha preferida em Curitiba). A partir daí, há exatamente uma semana, não nos separamos nem por um instante sequer. Ela vai comigo para todos os cantos e não me deixa nem mesmo na hora de dormir. Esse, aliás, é um dos momentos de que mais gostamos: Quando embarcamos nos nossos sonhos [...]

Desde que nos (des)encontramos de vez, já rimos e choramos juntas, ganhamos tempo em devaneios, trocamos ideias: banais e sérias. Discutimos quando percebemos nossas diferenças. Ela me ajuda a pensar quando estou em apuros e (ainda não descobri como ela faz isso) sustenta minha falta de sentido. Enfim, essa aproximação e intimidade toda ainda é nova pra mim e não sei que diabo pode sair disso. Talvez nos cansemos uma da outra. Talvez não. O que sei é que nesse momento estou adorando a companhia da "Menina Quebrada e outras colunas de Eliane Brum" e lentamente, porque sou demorada, passo a perceber, não sem espanto, que ela também está a gostar de mim. 


*BRUM, Eliane. ECA do B. Disponível em: <http://brasil.elpais.com/brasil/2015/09/28/opinion/1443448187_784466.html> Acesso em: 30 out. 2015. 

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