sábado, 7 de novembro de 2015

Minha amizade com Lya Luft

e nossos diálogos... 


Minha amizade com Lya foi como muitas: Intensa e breve. Ela não era única... mas tinha sua singularidade. Era evidente. 

Lya me mostrou que existe um “Rio do Meio”, que engana quando parece ser fácil de atravessar e engole os desavisados; Falou-me que há um “Tigre na Sombra”; E, sob o ponto de vista dela, mostrou-me “A riqueza do mundo”. 

Depois de um tempo de convivência, apesar de dizer-se bruxa, percebi que Lya era por demais “de bem” o que, à época, não satisfazia e não se encaixava com meu lado “do mal”, esse aspecto da natureza humana que vive à nossa esquerda e que pulsa em todos. A complexidade é nota que compõe a melodia de todos os corpos, precisamos reconhecer. Ninguém é só "de bem", ninguém é só "do mal". Esse tema infinito, que somos nós, nunca é por completo dominado. Saber-se complexo é não saber-se. E o que fazemos com o que não sabemos? Ora, buscamos saber. Se com calma, com cuidado e sem julgamento prévio, melhor. 

Voltando a minha complexa amizade com Lya. 

Éramos muito diferentes, percebi. E só aí, na nossa diferença, pudemos nos (re)conhecer. O que é igual não reconhece a diferença porque pensa que o que vê diante de si é (ou deve ser) só uma continuidade de si mesmo. Como acontece com os bebês nas suas relações primeiras. Ser adulto é reconhecer diferenças. 

Por fim, minhas ideias e de Lya conflitaram: Crescemos e infelizmente nos afastamos, como acontece com os adultos quando pensam muito diferente e a convivência fica impossível. Coisas pequenas. Veja só. Coisas da vida. Nunca mais a vi. 


Hoje de manhã cedinho, enquanto passava os olhos pelos livros da minha estante em busca de um presente para uma pessoa, inesperadamente a reencontrei! E foi como naqueles reencontros surpreendentes quando, do nada, ao cruzarmos a esquina batemos de frente com o destino! Relê-la foi como aquelas surpresas boas que a vida, depois de um clima de suspense, autoriza àqueles que sabem esperar (coisa quase esquecida nos tempos atuais).

Considero importante, aqui, lembrar-me que saber esperar nada tem a ver com passividade, embora uma dose de passividade seja indispensável aos que se propõe a exercitar a paciência. Saber esperar é antes uma ação. 

Bom, no fim da minha busca por um presente para uma outra pessoa, a presenteada fui eu! Lya mostrou-me que apesar dos conflitos e das diferenças podemos SER presente quando relembrou-me de uma das nossas riquezas: Os nossos diálogos. 

Lya Luft e minha amizade com ela, vale ouro. 


“O que éramos então nós, criaturas inquietas e indagadoras? Éramos procura de significado e de parceria, ainda que não se resolvesse nada. A gente estava tentando”. 
(A riqueza do mundo, Lya Luft, 2011).
Grazielle Pansard, numa manhã de domingo. Novembro de 2015.  

Crônica Publicada na Revista Tie Break, edição 122. 
www.mundieditora.com.br

Fotografia: Grazielle Monica

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