domingo, 20 de dezembro de 2015

Sobre fazer do corpo obra de arte

Corpo, partitura composta por notas que emitem a música essencial: V i d a *
Por Grazielle Pansard, dezembro/2015. 

[...] é preciso ter olhos de águia para ver além. Olhos rasos não permitem os mergulhos necessários para navegar as riquezas e profundezas que existem num oceano ou num rio (ainda acredito nos rios do nosso país e na sua capacidade de sobre-vida, apesar dos ataques lamacentos que vêm sofrendo por parte daqueles que precisam deles para viver: Nós mesmos). A arte expressada neste vídeo, por exemplo, fala disso. Da necessidade de termos um olhar crítico [...]

Mas não apenas isso. Ou seja, não apenas criticidade. Talvez a arte esteja antes para acolher a rigidez que nasce da crítica do que para sê-la. 

*Texto escrito a partir da leitura feita do vídeo Painted.  (Duncan McDowall. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=Pd2KM3qjcKk>

Existe na obra Painted um tema que subjaz a dança: as cenas e os movimentos. E não é preciso ser um crítico de arte para enxergar isso. Até porque estou me aventurando a falar algo sobre a arte que alguém desenvolveu com competência e não sou louca o suficiente para cometer despautérios em tempos tão côncavos. Mas é preciso ser um especialista para poder falar abertamente sobre o tema em questão (o que é o meu caso, já que sou psicóloga), porque sempre é difícil. O tema: A morte, esse ser misterioso, com aparência soturna e do qual normalmente temos medo porque anda à nossa espreita, estejamos atentos ou distraídos. 


Todos os dias vivemos algo que morre. Seja num objeto perdido, como recentemente foi o meu caso ao deparar-me com a perda, porque sou distraída, do meu querido livro “Felicidade Clandestina", Clarice Lispector (ainda estou de luto), ou de um ente querido ou seja na morte vivida quando perdemos um dia, estamos sempre diante dela, que não nos escapa. Fato: Nossos dias são passíveis de perdas e nós estamos passíveis a elas. Lidemos ou não com isso. 


Todos têm uma história de perda para contar – somos todos por elas constituídos. E exatamente por isso, podemos respeitar as diferentes formas que as pessoas encontram para lidar com este tema – porque a morte é feita de várias. Também de limites. Diversidade. 


Voltemos ao significante “perder o dia/tempo” – o que temos de mais precioso. Existem várias maneiras de perder um dia inteiro ou de perder a si mesmo num dia. Perder também é ganhar, de acordo (Marcelo Camelo, 2015). A esta altura, inclusive, suspeito que querer ganhar o dia é sempre uma triste ilusão. Se todo dia morre quando anoitece, todo dia se perde. 

TO-DO-SAN-TO-D-I-A-MOR-RE. Até parece piada. Mas não é. É esperança. 

Um jeito de fazer o dia viver (minha querida amiga Eliane Brum, foi quem deu-me a dica) é transformá-lo em história. História a ser contada. A história, essa criança-menina, que tem muita vida pela frente, quando ganha letra fica ainda mais viva. Estamos falando de algo raro: o difícil processo de re-significar os temas que para nós são os mais difíceis e tortuosos, entre eles a morte e o morrer. Perda. E é exatamente disso que falam as cenas, o corpo e os movimentos contidos na obra que estão condensados na obra Painted. É preciso ter clareza para enxergar quando há escuridão. A clareza não é inata, se desenvolve. E des-envolve. 


Concluindo (não gosto das conclusões. Primeiro porque são mentiras, segundo porque também são morte quando encerram em si outras possibilidades) se convivemos com o que nos assusta todos os dias, nossa própria possibilidade de morrer, somos em verdade muito corajosos desde o momento em que todas as manhãs vêm, silenciosamente, nos despertar. Se é que ainda temos coragem para dormir. 


No fim não falei quase nada da dança da "vida-morte-vida" (Clarissa Pinkola Estés que o diga) expressa tão lindamente no vídeo. É que não gosto de arriscar críticas. Arte para mim, tem só a função de ser. Ela mesma. Assim. Simples. Bonita. Expressiva.


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