quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

Carta aos assustados

Sobre nossos medos; Os infantis e os medos adultos. 


* * *
- O que te assusta? Perguntou a menina de olhos auspiciosos. 
- O fantasma de Anne Frank, respondi.
PARTE I. O LADO A DO MEDO.
Lembro, especialmente, de dois medos que me assombravam na infância:
Medo A) Tratores.
Medo B) “O Fortuna” – A música.
Explico.
Medo A) Tratores. Idade precisa: período pré-operatório, de acordo com as confabulações de Sir Jean Piaget.
Tratores eram seres sem explicação. Assustavam e ponto. O terror me subia pelas pernas e seguia até o último fio de cabelo branco fino e esvoaçante, como denunciam as fotos do álbum de família, sempre que via um deles se aproximar. Se era o tamanho monstruoso (sim, eu me impressionava com coisas pequenas o que fazia meu mundo ser bem interessante), formas grotescas ou o som estrepitoso, não sei. Será para mim um eterno mistério. Fato, era que tratores me faziam esbugalhar os olhos e sempre que um pintava à minha frente ou na linha do horizonte, eu não sabia se corria, se chorava ou se ficava.


Foto: Dossi | Pixabay

Na dúvida, fazia o que de melhor podia fazer: Nada. É. Nada. Assim, esperava o trator passar e com ele o medo, que eu via ir embora de carona naquela máquina assustadora.
Desde bem cedo descobri a potência que existe no fazer nada - essa coisa vazia, e de sustentar isso em algumas situações para então, talvez, poder fazer alguma coisa. 

“O vazio é o meio de transporte pra quem tem coração cheio”, canta Paulinho Moska. 

As crianças sabem. Muita coisa.
Na infância o universo conspira descobrimentos. Por isso imagino que a esta mesma época em que eu me iniciara neste fazer – o da paciência, em outras palavras, Manoel de Barros investia na criação de teorias que mais tarde, em 1996, viriam a compor seu pequeno grande “Livro sobre Nada”. O universo tem tramas. Vazios, nadas… nós, paciências.
Voltando a encruzilhada das dúvidas: “não decidir é uma grande decisão”, aviso aos navegantes! Fabrício Carpinejar, Para onde vai o amor? Crônicas de Fossa (Bertrand Brasil, 2015).
Fabrício, amor não se escreve, se vive.
Amor escreve sim! Letra e palavra são amantes.
A vida, esse passado-presente-futuro, é história.
E nossa história mora onde? Livros são como casas. São nossas histórias contadas por outros.
É verdade que quando eu não estava sozinha (provavelmente na maioria das vezes já que tive a sorte de ser uma criança bem acompanhada), era bem mais fácil enfrentar o trator. Por exemplo, tudo ficava mais fácil quando, enquanto esperava aquele maquinário monstruoso passar, minha mãe segurava minha mão e lá de cima, do alto dos seus 1 metro e 60 centímetros de altura, ela lançava o seu olhar acompanhado de um sorriso leve e que eu sabia ler. No sorriso e no olhar leve de minha mãe estava escrito: Confiança.
PARTE II. O LADO B DO MEDO.
Medo B) “O Fortuna” – A música. Idade precisa: Operações concretas, Jean Piaget.
Aqui, a história começa numa piscina. Uma piscina única que habitava a única escola pública com piscina da cidade do FITUB! Um luxo! Pelo menos era isso que eu ouvia os adultos falando, que aquela era a única escola pública da cidade que oferecia piscina e aula de natação às crianças e aquilo parecia motivo de muito orgulho. Era mesmo. Quiçá todas as escolas públicas pudessem oferecer tais oportunidades. Enquanto país da educação precisamos aprender a caminhar segundo a nossa missão. 
Voltando ao orgulho dos adultos, porque eu via-os discursando sobre aquela, a nossa, ser a única escola pública do município com piscina eu também saía por aí repetindo o discurso e como todos, me orgulhava dele.
Fui aluna de natação da Escola Básica Municipal Alberto Stein e a nadar aprendi brincando, como é recomendável que sejam os aprendizados infantis: uma brincadeira. Nadar não era coisa séria pra mim e coisa que criança que é criança sabe fazer bem, sem dúvida nenhuma, é brincar. Chato é aquele momento em que alguém, quase sempre um adulto, avisa que está na hora da brincadeira terminar. 

No mundo dos adultos quase tudo tem hora para acontecer. 
A vida tem seus tempos, seus ciclos. É assim que funciona. A vida tem seus momentos.
Nesse caso, quem me pediu para a brincadeira acabar e virar coisa séria foi minha então professora de natação, que viria a se tornar minha treinadora e por quem guardo carinhosas lembranças. Assim como minha mãe, também ela me inspirou confiança convidando-me a integrar a equipe oficial de natação da escola. Se eu aceitasse seria uma das representantes da escola nos jogos estudantis da cidade e região. Odiei a ideia. A brincadeira sofreria monstruosas mutações e seria coisa séria o que sem dúvida, para uma criança que só queria brincar, ficaria muito, mas muito chato. A resposta ao convite foi enfática, levemente tímida: “acho que não”. Mais duas, três tentativas da profe, em dias alternados, tempo para pensar e por fim, cedi.
Antes, duas vezes por semana brincar de nadar na água; Depois, todos os dias da semana treino. Antes, pouco me interessavam as habilidades esportivas dos colegas que brincavam de nadar comigo (quem se importava com isso se para brincar todos tinham habilidade?); Depois, já que não era mais brincadeira, eu precisava aprender as tais habilidades e percebia, com certo desespero, que minha melhor habilidade continuava sendo a brincadeira.
Achava aquilo de treinar para competir uma verdadeira chatice. Mas não queria decepcionar a profe, muito menos a mim mesma já que havia aceitado o desafio e segui em frente. Curioso foi perceber as transformações no meu corpo provocadas pelo excesso de treino. De criança elegante, ao invés de um corpo atlético, eu passava a adquirir um“corpitxo” elegantemente roliço.
O motivo: Os treinos e a ideia que os motivava (a competição) me davam dores de barriga. Não conseguindo me alimentar adequadamente antes das aulas por causa de “problema dos nervos” (leia-se neuroses infantis, gênesis) quando ele terminava, já com o nível de energia no mindinho do pé, ia eu cambaleando até a cantina da escola para repor as energias com um pastel de banana, a famosa “bananinha”, que dava para comprar com as moedas da minha mesada (tive a chance de aprender a administrar meu próprio dinheiro ainda criança). E como era divertido me besuntar de açúcar depois dos treinos! “Meu troféu’’, falava sozinha enquanto saboreava aquela gostosura. Claro que isso não acontecia todo os dia, até porque a mesada era bem modesta. Mas em alguns sim.
Vieram as competições e o instante derradeiramente inaugural:
Ginásio do SESI, Jogos Estudantis da Primavera (1995), dia de competição e minha primeira experiência com ela: A música. Sim! Com a música!
Imagino que para tornar a coisa toda mais emocionante (quem não gosta de fortes emoções uma vez ou outra para driblar o tédio?), alguém pôs na vitrola do ginásio uma das poesias do Carmina Burana, musicada por Carl Orff (1895- 1982), “O Fortuna”. A música fluía invadindo todos os cantos empoeirados daquele ginásio enorme, ecoando aquelas notas assustadoras, a todo vapor! A essa altura eu já começava a me sentir num grande barco furado e a música, para meu desespero, só aumentava a ansiedade. Aquela música assustava muito mais que competir. Era ela a encarnação sonora de todos meus pesadelos infantis! É verdade que o medo de competir era uma mentira que eu inventara. Meu medo era na realidade, da perda. De perder, você sabe. Fracassar…
Nadadores a postos, preparação, o árbitro anuncia a largada e lá vai! Uma máquina mortífera na água! Perto dos meus adversários eu estava morta de tão cansada e bem no início da prova. De nadadora em potencial eu estava mais próxima de uma “Pequena Miss Sunshine” – o filme, das águas. Pelo menos sempre me sobrava uma medalha de bronze. E o melhor, o desafio estava superado. Eu aprendera a atravessar a nado a piscina do medo sem me afogar, além de poder ouvir a música dos meus pesadelos infantis (esses sempre são os mais assustadores) sem paralisar.
Hoje quando ouço “O Fortuna”, cuja interpretação feita pelos caras do The Piano Guys é emocionante, percebo nela uma música simplesmente divina, um som dos deuses! Também acho interessante a versão do astro pop da música clássica, André Rieu. Já a de Carl Orff – o criador da obra, é indiscutível. Todas as versões estão disponíveis no youtube. E por fim, não posso deixar de observar: Ela ainda me assusta e sempre que a ouço, sinto que meus sentidos são convidados a dançar.

Grazielle Pansard, janeiro de 2016. 
Crônica Publicada na Revista Valeu! A Revista Cultural do Vale Europeu, edição Março 2016, pág. 30. Também disponível em versão online www.revistavaleu.com.br 


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