quinta-feira, 30 de março de 2017

O luto que resiste: A terapêutica clínica e Saúde Existencial

FOTO: VejaBrasília 
Imagem da exposição "Modelo para Sobrevivência" de Julia Catstagno (Uruguai)

No primeiro fim de semana de outono, último 25 de março deste ano, estivemos em Curitiba com o propósito de participar de um MiniCurso cuja temática frequentemente considerada obscura e pesada, contrastou com a leveza daquele sábado marcado pelo clima típico da estação: Natureza viva se exibindo na cor do céu, no vento, nas folhas secas caídas às margens do chão e que enfeitaram nosso caminho até o “Encontro da Amazônia”, local onde aconteceu o evento. Terra de personalidades como João Turín, Dalton Trevisan, Paulo Leminski e casa de José Castello, Curitiba é, certamente, um lugar que aprendemos a amar, por isso vive sempre nas nossas lembranças (mesmo que estejamos longe).
“A morte é sempre um susto. Uma quebra”.
“Nossa sociedade está preparada para acolher o luto daqueles que perdem um ente querido?”
“De que modos são tratados os enlutados em nossa sociedade?”
À luz destas questões e sob a condução da Professora e Psicóloga Dra. Joanneliese de Lucas Freitas, atualmente docente na UFPR e organizadora do livro lançado em 2015 “Mães em Luto: A dor e suas repercussões existenciais e psicanalíticas” (Juruá Editora) fomos convidados a pensar e dialogar em torno de um dos eixos comuns à vida de todos nós: A morte e o processo de luto envolvido neste acontecimento. Trabalho árduo, sem dúvida, para todos os presentes no encontro: Psicólogos, especialistas no assunto, acadêmicos e médicos. “A não ser que morramos primeiro, todos, em algum momento das nossas vidas vamos passar por um processo de luto”, lembrou-nos Dra. Joanneliese (ou apenas “Jô” como se autodenominava), introduzindo a inquietação necessária para que nos desacomodássemos de nossos lugares de “inatingíveis” e “imortais”.
Inatingíveis é tudo o que não somos enquanto Psicólogos, Psicoterapeutas, Analistas ou qualquer denominação que se dê o profissional que se propõe a fazer do seu pensamento, palavras, silêncios, diálogo, corpo de conhecimento, instrumento de trabalho em favor do outro – Aquele que o busca.
Estar diante de alguém que sofre a dor da perda, nunca é trabalho fácil, nem tampouco se vale para sustentar a ideia romantizada deste ofício que permeia a fantasia de muitos profissionais ainda em fase de formação, do tipo “quero poder ajudar”.
Não raro, diante do adoecimento e da morte, também padecem profissionais que atuam neste contexto. Deixam-se atingir, ainda que pelejem arduamente contra sua própria sensibilidade (capacidade de pensar), isto que os faz humanos. Também requerem cuidados.
Quem já passou pela experiência sabe que diante da dor da perda, somos de verdade, impotentes. Por mais que estejamos munidos de informações, de formações e vivências a dor desencadeada por uma experiência de luto/morte é sempre singular e única, não passível de técnicas de manuseio e que deixa a todos nós “órfãos”. A dor não se deixa domar, é selvagem e pede lugar. Muitas vezes, quando não ouvida, paralisa quem a traz no corpo.
Diante dessa constatação, o que nos resta fazer?
No final do ano de 2014, estive na capital de Minas Gerais, em Belo Horizonte, onde visitei no CCBB (Centro Cultural do Banco do Brasil) uma exposição curiosa. Integrando a Mostra Coletiva “Ciclo: Criar com o que temos”, que tem circulado também em outros estados do Brasil, a obra “Modelo para sobrevivência” da artista uruguaia Julia Catstagno (1977) chamou especialmente minha atenção. Ao entrar numa sala escura iluminada apenas com tímidos feixes de luz, deparei-me com uma obra monumental de forma indefinida e sem qualquer significado à priori. Senti-me ligeiramente desconfortável, dando lugar, portanto, ao desconhecido. Elaborada e construída sob a fragilidade de finos palitos de dente onde um servia de apoio e suporte ao outro, unidos por uma tênue camada de cola a obra formava um todo sustentado a partir da integração das suas partes. Simples e ao mesmo tempo complexa, a obra “Modelo para Sobrevivência” nos remete à força que existe no coletivo e no suporte que podemos encontrar no outro.
Volto ao Minicurso sobre “A clínica do Luto” ministrado pela professora Joanneliese e com quem fomos aprender.
Diferente de ideias difundidas por aí, sofrimento não nos deixa melhores. Precisamos aprender a lidar com ele. Acolher, dar-lhe voz, é um bom começo num processo de cura.
“Nossa sociedade não é acolhedora” desabafou alguém a certa altura da aula. Bastante compreensível se olharmos para nosso retrato social, onde quem não produz compulsivamente e o tempo inteiro não é feliz (ou pelo menos pareça) é de um modo ou de outro excluído, a experiência do luto pode ensejar no sujeito que a vivencia, muita solidão, isto é, impossibilidade de compartilhar algo.  
Voltei de Curitiba com a mesma sensação de impotência com que fui, diante deste tema aterrador. Se valeu a viagem? Sem dúvida. Afinal de contas, pudemos falar, estar juntos, nos ouvir. Através do conhecimento e da presença de cada um que esteve lá, fomos e tivemos suporte, ainda que a realidade da nossa mortalidade, em nenhum momento, nos abandonasse. Pudemos, de verdade, compartilhar desse tema que é tão difícil falar. 

Por Grazielle Monica G.Pansard

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