Há uma intimidade estranha que se cria com certos escritores. Eles entram na nossa rotina sem pedir licença. Comentam o mundo, colocam em palavras algo que estava difuso dentro nós, e aos poucos, passam a habitar nossa memória afetiva.
Foi assim que nasceu uma convivência silenciosa com o escritor Contardo Calligaris, a quem eu reservava alguns minutos semanalmente para encontrar nas paginas do jornal.
Durante anos assinei a Folha só para ler seus textos. Lia sua coluna como quem acompanha uma boa conversa, dessas que nunca decepcionam. Nao era apenas alguem cuja forma de ver o mundo eu me interessava; era uma presença recorrente. Ler seus textos era quase um ritual.
Foi numa dessas leituras, que encontrei a recomendação de Babylon Berlin.
Assisti a série e levei dela uma companhia inesperada também: sua música-tema “Zu Ashes Zu Staub” (Psycho Nikoros) interpretada pela atriz lituana Severija. Os anos passaram. Contardo morreu. A série terminou. Mas bastam os primeiros acordes de “Zu Asche, Zu Staub” (às cinzas, ao pó) para que algo se mova dentro de mim. Um arrepio. Uma emoção difícil de nomear.
Curioso como funcionam as lembranças. A música nao me leva apenas a Berlin dos anos 1920. Ela me “enleva” e me faz experimentar essa convivência silenciosa, com minhas próprias memórias.
Assim, toda vez que a canção toca Contardo reaparece tambem - nao como uma ausência, mas como um lembrete de que algumas pessoas continuam habitando nossa vida pelos caminhos mais inesperados.


