Outro dia me ocorreu que eu deveria incluir nos meus textos uma declaração de procedência:
Ideia surgida durante um banho, numa caminhada ou num momento de ócio; memória antiga, de origem familiar; duas palavras encontradas num livro; inspiração vinda de um filme assistido; meus diários; uma frase discutida com a inteligência artificial (três sugestões recusadas); vírgulas conferidas por conta própria.
Sou alguém que escreve e gosta dessa prática (às vezes mais, às vezes menos regular) desde criança, quando os diários vinham com chave. Uma vez minha mãe encontrou a chave que eu escondia e leu: “minha mãe estava uma chata hoje”. Ela ficou chateada comigo por causa do que escrevi. E eu fiquei achando que não servia para a escrita porque escrevia coisas feias.
Mesmo sabendo que posso não servir à escrita, continuo escrevendo porque sei que sou eu que preciso dela, não ela de mim. Ser alguem que escreve e gosta de escrever, nao é o mesmo que ambicionar ser escritora. Escrever me faz bem. Gosto de acompanhar o momento em que algumas ideias antes espalhadas e sem compromisso umas com as outras, começam a formar um conjunto organizado. Sinto entao uma inquietação boa, a vontade de trocar algumas palavras de lugar, sentir o efeito, ver no que dá.
Aprendi cedo que escrever uma frase e permitir que alguem a leia sao acontecimentos diferentes. Se hoje torno alguns textos publicos, tenho responsabilidade pelas palavras que solto no mundo - mas nao controlo o que o leitor faz com elas.
Dito isso, vale lembrar que uma frase nunca vem exatamente do nada.
Há muitos caminhos respeitáveis para chegar até elas. Formação de ponta, acesso a livros desde criança, viagens, amigos dispostos a ler suas primeiras versões. Tudo isso participa da escrita e tem nomes bonitos: repertório, formação interlocução.
Há, ainda, quem conte com as leituras possíveis, alguma vivência, vontade e uma conversa aberta - porem nao irrestrita - com a inteligência artificial. Nao vejo porque só certos recursos autorizariam alguem a tentar, enquanto outros exigiriam uma declaração de procedência.
Sim. Sei que existe o uso indiscriminado de IA e as implicações disso. Me refiro aqui à outra coisa.
Às vezes peço uma correção. Às vezes fazemos coisas mais complexas: discutimos campo semântico, relações entre ideias, camadas da linguagem, estrutura, tom, ou entramos numa extensa discussão sobre por que duas palavras quase sinônimas nao cumprem a mesma função num parágrafo. Ela responde com segurança, mesmo quando está errada. Característica que nao chega a ser exclusiva da maquina.
Mas há uma questão mais interessante do que saber se alguem usou ou nao a ferramenta. Podemos reconhecer, principalmente em textos que circulam pela Internet, muitas vezes um tom que se repete. Às vezes semelhante, outras quase idêntico.
Nao faz muito tempo reconheci, num texto eacrito por outra pessoa e lido na Internet, aquilo que passei a identificar como o tom da maquina. Nao sei se havia inteligência artificial ali. Aquela frase poderia ser minha. Reconheço na IA um modo de dizer que tambem poderia ser meu.
É aí que a questão se complica: nao sei se a maquina esta interferindo no modo como escrevemos ou apenas aprendeu a reproduzir a linguagem que ja circulava entre nós. Fato é que desconfio agora mais de frases bonitas - inclusive das que escrevo sozinha. Mas rejeitá-las apenas porque se parecem com algo que a IA diria, seria rejeitar minha própria voz.
De todo modo, uma voz nao esta apenas no tom ou nas características pelas quais um texto se torna reconhecível. Está tambem nas escolhas, nas recusas e nos desvios que o produzem. A maquina reproduz padrões. Quem escreve pode contrariar os próprios padrões e surpreender - ou nao.