sexta-feira, 18 de setembro de 2026

IA

Outro dia me ocorreu que eu deveria incluir nos meus textos uma declaração de procedência: 

Ideia surgida durante um banho, numa caminhada ou num momento de ócio; memória antiga, de origem familiar; duas palavras encontradas num livro; inspiração vinda de um filme assistido; meus diários; uma frase discutida com a inteligência artificial (três sugestões recusadas); vírgulas conferidas por conta própria.  


Sou alguém que escreve e gosta dessa prática (às vezes mais, às vezes menos regular) desde criança, quando os diários vinham com chave. Uma vez minha mãe encontrou a chave que eu escondia e leu: “minha mãe estava uma chata hoje”. Ela ficou chateada comigo por causa do que escrevi. E eu fiquei achando que não servia para a escrita porque escrevia coisas feias. 


Mesmo sabendo que posso não servir à escrita, continuo escrevendo porque sei que sou eu que preciso dela, não ela de mim. Ser alguem que escreve e gosta de escrever, nao é o mesmo que ambicionar ser escritora. Escrever me faz bem. Gosto de acompanhar o momento em que algumas ideias antes espalhadas e sem compromisso umas com as outras, começam a formar um conjunto organizado. Sinto entao uma inquietação boa, a vontade de trocar algumas palavras de lugar, sentir o efeito, ver no que dá. 


Aprendi cedo que escrever uma frase e permitir que alguem a leia sao acontecimentos diferentes. Se hoje torno alguns textos publicos, tenho responsabilidade pelas palavras que solto no mundo - mas nao controlo o que o leitor faz com elas. 


Dito isso, vale lembrar que uma frase nunca vem exatamente do nada. 


Há muitos caminhos respeitáveis para chegar até elas. Formação de ponta, acesso a livros desde criança, viagens, amigos dispostos a ler suas primeiras versões. Tudo isso participa da escrita e tem nomes bonitos: repertório, formação  interlocução. 


Há, ainda, quem conte com as leituras possíveis, alguma vivência, vontade e uma conversa aberta - porem nao irrestrita - com a inteligência artificial. Nao vejo porque só certos recursos autorizariam alguem a tentar, enquanto outros exigiriam uma declaração de procedência. 


Sim. Sei que existe o uso indiscriminado de IA e as implicações disso. Me refiro aqui à outra coisa. 


Às vezes peço uma correção. Às vezes fazemos coisas mais complexas: discutimos campo semântico, relações entre ideias, camadas da linguagem, estrutura, tom, ou entramos numa extensa discussão sobre por que duas palavras quase sinônimas nao cumprem a mesma função num parágrafo. Ela responde com segurança, mesmo quando está errada. Característica que nao chega a ser exclusiva da maquina. 


Mas há uma questão mais interessante do que saber se alguem usou ou nao a ferramenta. Podemos reconhecer, principalmente em textos que circulam pela Internet, muitas vezes um tom que se repete. Às vezes semelhante, outras quase idêntico. 


Nao faz muito tempo reconheci, num texto eacrito por outra pessoa e lido na Internet, aquilo que passei a identificar como o tom da maquina. Nao sei se havia inteligência artificial ali. Aquela frase poderia ser minha. Reconheço na IA um modo de dizer que tambem poderia ser meu. 


É aí que a questão se complica: nao sei se a maquina esta interferindo no modo como escrevemos ou apenas aprendeu a reproduzir a linguagem que ja circulava entre nós. Fato é que desconfio agora mais de frases bonitas - inclusive das que escrevo sozinha. Mas rejeitá-las apenas porque se parecem com algo que a IA diria, seria rejeitar minha própria voz. 


De todo modo, uma voz nao esta apenas no tom ou nas características pelas quais um texto se torna reconhecível. Está tambem nas escolhas, nas recusas e nos desvios que o produzem. A maquina reproduz padrões. Quem escreve pode contrariar os próprios padrões e surpreender - ou nao. 


terça-feira, 1 de setembro de 2026

Notas de leitura: Três, Valérie Perrin

O que sustenta uma amizade quando aquilo que a fundou ja nao existe? 

Três começa com este mito: tres crianças, uma amizade capaz de sobreviver a tudo. É essa certeza q Perrin entrega ao tempo.  

O que resta sao laços cuja matéria original - infância, adolescência, cumplicidade, sonhos compartilhados, a ideia de um futuro vivido juntos - desapareceu, mas cujo vínculo não desaparece inteiramente. 

A questão, para Perrin, nao parece apenas ser “o que aconteceu com Adrien, Étiene e Nina”, mas como o passado continua organizando a vida deles muito depois de o trio ter deixado de existir como trio. 

Outro ponto que vale ser mencionado, pois caraceriza a obra, é o que a autora faz ao longo de toda a história - especialmente da metade para o fim: ela adia informações, abre passado dentro de passado, muda o foco, insinua, volta… e, quando as peças começam a se encaixar, continua segurando. 

Sentimos a paciência testada. A leitura começa a patinar nao por falta de interesse. Voce quer MUITO saber. O problema é que o livro sabe disso e fica fazendo rodeios. 

É quase: 

-Valérie, o que aconteceu?

- já chego lá, mas antes deixe-me contar mais uma coisa que houve em 1994…

-VALÉRIE. 

O romance parece ser construído por adiamento. Quando uma linha narrativa finalmente chega perto de uma resposta - Adrien, 1986, o acidente, o que aconteceu entre os três - e cria uma urgência narrativa, Perrin abre outra gaveta. Conta outra história. Apresenta outra personagem. E pede que você tenha interesse nela. 

E nos interessamos. 

Esse vício é quase estrutural em Três: um recurso que funciona, mas que Perrin repete até quase esgotá-lo. 

Só que esse incômodo não é inteiramente gratuito. 

♡ Há algo, porem,nessa estrutura que repete, na forma, aquilo q o romance conta. Em Três o passado nunca fica exatamente onde deveria estar.Ele atravessa o presente o tempo inteiro. 

A propria narrativa obedece esse movimento: quando o presente começa a avançar alguma coisa o puxa de volta. Uma lembrança, um personagem, um acontecimento aparentemente lateral. 

Adrien,Étiene e Nina crescem, se afastam, constroem outras vidas mas continuam carregando versões uns dos outros que pertencem a outro tempo. A amizade já não existe da maneira como existiu um dia, mas continua organizando afetos, ressentimentos, silêncios e escolhas.




sábado, 29 de agosto de 2026

O que herdamos

Eu estava indo para o trabalho quando começou a tocar “Dancing Queen” do ABBA. Foi quando me lembrei de uma música esquecida. 

Chiquitita, tell me what's wrong. 

Fui procurá-la e, enquanto tocava, lembrei que minha mae dizia que ela era para mim. 

I can see that you're so sad, so quiet. 

Na infância, aceitei a dedicatória sem fazer muitas perguntas. Crianças parecem saber viver melhor com certas coisas sem precisar entendê-las. Uma música podia simplesmente ser minha. 

Só agora me ocorreu prestar atenção no que ela dizia. 

Não via a minha mãe exatamente como uma pessoa otimista. A vida, para ela, parecia uma coisa não muito gentil. Sua história havia lhe ensinado cedo que ela nem sempre respeita o tempo das coisas, pra dizer o mínimo. 

Cresci conhecendo melhor o que podia dar errado do que a ideia de que a vida pudesse ser promissora. 

Chiquitita, tell me the truth

Por isso ha algo de estranho ao descobrir, décadas depois, que aquela musica que dizia ser para mim falava de tristeza, sim, mas sobretudo da possibilidade de sair dela. De dias melhores, de voltar a cantar. 

Penso agora que, através da canção, minha mae conseguiu me dizer o que nao conseguia com as próprias palavras. 

Não tenho certeza de que acreditava naquilo para si. Mas estou certa de que era o que desejava para mim. 

Há coisas que herdamos porque nossos pais as possuem:um jeito de rir, uma expressão,medos,uma receita, a tendência a guardar potes que provavelmente nunca terão utilidade. 

Outras chegam justamente do lugar da falta. 

Nao herdamos necessariamente aquilo que faltou a eles. Às vezes herdamos o desejo que nasceu ali. Uma direção para um lugar onde eles próprios nao conseguiram chegar. 

But the sun is still in the sky and shining above you

Talvez minha mae nao pudesse me dar a certeza de que a vida seria boa. Ninguém pode. Mas escolheu uma musica que insistia que depois da tristeza ainda seria possivel cantar outra vez. 

Descobri outra coincidência curiosa. Em aramaico abba significa pai. 

Nao significa nada para o nome da banda. Sao apenas as iniciais de Agnetha, Björn, Benny e Anni-Frid. 

Ainda bem. 

Algumas coincidências ficam melhores quando nao explicam coisa alguma.

 

quinta-feira, 20 de agosto de 2026

As pessoas como arquivo umas das outras

Eu tinha cinco anos quando observei pela primeira vez a poeira suspensa no ar.

Minha mae trocava os lençóis da cama que ficava sob uma janela. A luz entrava em feixes e eu, deitada, acompanhava as pequenas partículas que apareciam e desapareciam dentro deles.

Perguntei o que era. 

Anjinhos, minha mae respondeu.

Anos depois contei a ela essa história que se tornou uma das primeiras explicações do mundo pra mim.

Ela nao lembrava.

Essa cena, que tambem compunha a biografia dela, ficou guardada só comigo.

Outro dia reencontrei uma amiga que nao via ha anos. Em algum momento da conversa ela trouxe à tona uma lembrança que ja havia se apagado. Um hábito que eu tinha, uma expressão que costumava repetir, uma coisa pequena o bastante para ter desaparecido de mim e ainda assim permaneceu com ela.

Isso me faz pensar que parte da nossa biografia nao está conosco. Está espalhada com as pessoas que nos conheceram.

Histórias de vida que se atravessam, se afastam, voltam a se tocar e ja nao da mais pra saber exatamente onde termina uma e começa outra. Ha uma especie de troca de arquivos.

Talvez seja por isso que reencontrar alguem depois de muito tempo seja um pouco perigoso. A pessoa pode devolver coisas que não lembramos ter sido, partes nossas já deletadas ou que simplesmente não chegaram a ser armazenadas num depósito de lembranças e aquela outra versão, soa apenas muito estranha.

As vezes o que alguem nos devolve nao parece sequer uma lembrança. Parece outra pessoa. Uma versao antiga de nós mesmas.

Num show, vi uma imagem de Lady Gaga jogando xadrez contra uma antiga versao de si mesma e fiquei pensando:

Se pudéssemos sentar diante de quem fomos, jogariamos com ela ou contra ela?

Nossas versões anteriores nao sao necessariamente versões das quais evoluímos ordenadamente.Algumas ainda provocam, seduzem, constrangem, contradizem. E as vezes basta alguem lembrar de alguma coisa para colocar uma delas de novo diante de nos.

No fim a vida parece ser, entre tantas coisas, um sistema de armazenamento improvisado onde andamos por aí com pedaços dos outros, memorias alheias, enquanto os outros tb levam consigo partes de nós.

quarta-feira, 12 de agosto de 2026

Notas de Leitura: Pura Cor, Sheila Heti

Cheguei ao fim de Pura Cor com a sensação de que o livro tinha escondido um segredo desde a primeira página. Mas não me senti enganada. Ao contrário: a revelação fez tudo o que veio antes encontrar o seu lugar. 

Sheila Heti constrói, nessa obra,  um mundo em que árvores, folhas, pessoas e animais pertencem à mesma trama de significados. Em vez de oferecer respostas prontas, convida o leitor a experimentar uma outra maneira de olhar.

Isso cria um efeito delicado: o livro parece lembrar que as histórias não existem apenas para explicar o mundo, mas para nos ajudar a atravessá-lo. Essa é uma ideia já conhecida, mas gosto tanto dela que a quero aqui também. 

Há a tentativa de cuidar do outro, como tema recorrente. Sheila mostra que contar uma história é uma forma de cuidado. Ela nao resolve a morte, o luto ou a solidao mas cria um espaço onde essas coisas podem ser suportadas. 

Houve um determinado momento em que senti que a narrativa havia parado de andar. A leitura desacelerou, e foi difícil continuar ali. Era o luto de Mira ocupando tudo. Só no final tive a impressão de ter compreendido essa  escolha da autora. 

Em nenhum momento a narrativa parecia correr em direção a um destino; ela seguia o ritmo de alguém contando uma história em voz alta permitindo imagens, desvios, associações. 

No fim, percebi que esse modo de narrar também faz parte daquilo que o livro quer comunicar: algumas experiências não cabem em explicações racionais. 

Mais do que contar uma história, ele transmite uma forma de olhar para a vida, o amor e a morte.


quinta-feira, 6 de agosto de 2026

Sem alarde

Entre as inúmeras estranhezas do mundo, há esta: Às vezes a cidade acorda sem querer impressionar ninguém. Como se estivesse fazendo um manifesto - contra a glamourização da alta performance, em favor,  talvez,  da atenção. 

O ônibus passa no horário de sempre. O cachorro atravessa a rua no mesmo ponto. Uma mulher na padaria organiza os pães no balcão como se cada um tivesse o lugar exato. Uma senhora varre a calçada em movimentos lentos, como se não tivesse pressa em terminar. Um homem rega uma planta na sacada do terceiro andar, como se aquilo fosse suficiente para justificar a manhã.

Talvez seja. 

Há momentos em que passamos o  dia esperando que algo finalmente aconteça. Enquanto isso, uma folha gira alguns segundos antes de tocar o chão. O reflexo de uma janela transforma um prédio comum numa aquarela. O silêncio de alguém lendo num café ocupa o espaço sem pedir licença. 

Nada disso anuncia que algo extraordinário esteja se desenhando. No entanto, há uma sensação de que o mundo continua escrevendo uma história sem precisar levantar a voz. 

O cheiro do pão assando traz à tona uma memória gostosa. O gato olhando a rua pela janela recebe um aceno. Uma camisa esquecida no varal dançando ao vento faz a menina sorrir. O som de um skate descendo a rua interrompe uma conversa. O olhar de um adolescente sentado à janela de um ônibus desperta a curiosidade de alguém. 

Uma pessoa passa, pedalando devagar sua bicicleta, como se não estivesse atrasada para lugar nenhum. 

Há dias em que a cidade não faz alarde e, ainda assim, há tanto para ver. Tanto para viver.

quinta-feira, 30 de julho de 2026

Medíocres (Hacks): Para quem gosta de gente imperfeita

Ao terminar o primeiro episódio de Hacks, pensei: gostei, mas não sei exatamente por quê. 

Algumas experiências não pedem análise imediata. Elas pedem convivência. Um livro, uma amizade, uma cidade, uma música... às vezes a compreensão vem só algum tempo depois. 

Em poucas palavras: A série mostra mulheres tentando viver. Trabalhando. Errando. Criando vínculos. 

E eu, ao longo dos episódios, fui descobrindo o que me conquistou. 

As duas protagonistas são inteligentes. A série não trata nenhuma delas como caricatura: mocinha versus vilã. Deborah pode ser vaidosa e difícil, Ava pode ser impulsiva e arrogante, mas ambas têm talento. 

Deborah e Ava nao estão ali para salvar uma à outra. Elas competem, se irritam, aprendem e, aos poucos, vão revelando camadas que nao aparecem no primeiro episódio. 

Os diálogos têm ritmo. O humor nasce da personalidade delas, não de piadas soltas. 

O que costuma chamar minha atenção:

》A vulnerabilidade das personagens por trás da ironia. 

E “Medíocres” oferece isso aos montes. 

A série não pede que você tenha pena de Deborah. Em pequenos gestos, ela deixa escapar a solidão, o medo de envelhecer e a necessidade de continuar relevante.

Quem nunca conheceu alguém assim?

》um espelho ajuda a responder essa pergunta. 

E, finalmente, ela respeita o espectador. Não explica tudo nem força emoção. Como disse, você vai descobrindo com o tempo o que te prende nela. 

Já assistiu?