terça-feira, 1 de setembro de 2026

Notas de leitura: Três, Valérie Perrin

 O que sustenta uma amizade quando aquilo que a fundou ja nao existe? 

Três começa com este mito: tres crianças, uma amizade capaz de sobreviver a tudo. É essa certeza q Perrin entrega ao tempo.  

O que resta sao laços cuja matéria original - infância, adolescência, cumplicidade, sonhos compartilhados, a ideia de um futuro vivido juntos - desapareceu, mas cujo vínculo não desaparece inteiramente. 

A questão nao é apenas “o que aconteceu com Adrien, Étiene e Nina”, mas como o passado continua organizando a vida deles muito depois de o trio ter deixado de existir como trio. 

Perrin faz uma coisa curiosa em sua obra: adia informações, abre passado dentro de passado, muda o foco, insinua, volta… e, quando as peças começam a se encaixar, continua segurando. 

Sentimos a paciência testada. A leitura começa a patinar nao por falta de interesse. Voce quer MUITO saber. O problema é que o livro sabe disso e fica fazendo rodeios. 

É quase: 

-Valérie, o que aconteceu?

- já chego lá, mas antes deixe-me contar mais uma coisa que houve em 1994…

-VALÉRIE. 

O romance parece ser construído por adiamento. Quando uma linha narrativa finalmente chega perto de uma resposta - Adrien, 1986, o acidente, o que aconteceu entre os três - e cria uma urgência narrativa, Perrin abre outra gaveta. Conta outra história. Apresenta outra personagem. E pede que você tenha interesse nela. 

E nos interessamos. 

Esse vício é quase estrutural em Três: um recurso que funciona, mas que Perrin repete até quase esgotá-lo. 

Só que esse incômodo não é inteiramente gratuito. 

♡ Há algo, porem,nessa estrutura que repete, na forma, aquilo q o romance conta. Em Três o passado nunca fica exatamente onde deveria estar.Ele atravessa o presente o tempo inteiro. 

A propria narrativa obedece esse movimento: quando o presente começa a avançar alguma coisa o puxa de volta. Uma lembrança, um personagem, um acontecimento aparentemente lateral. 

Adrien,Étiene e Nina crescem, se afastam, constroem outras vidas mas continuam carregando versões uns dos outros que pertencem a outro tempo. A amizade já não existe da maneira como existiu um dia, mas continua organizando afetos, ressentimentos, silêncios e escolhas.

sábado, 29 de agosto de 2026

O que herdamos

Eu estava indo para o trabalho quando começou a tocar “Dancing Queen” do ABBA. Foi quando me lembrei de uma música esquecida. 

Chiquitita, tell me what's wrong. 

Fui procurá-la e, enquanto tocava, lembrei que minha mae dizia que ela era para mim. 

I can see that you're so sad, so quiet. 

Na infância, aceitei a dedicatória sem fazer muitas perguntas. Crianças parecem saber viver melhor com certas coisas sem precisar entendê-las. Uma música podia simplesmente ser minha. 

Só agora me ocorreu prestar atenção no que ela dizia. 

Não via a minha mãe exatamente como uma pessoa otimista. A vida, para ela, parecia uma coisa não muito gentil. Sua história havia lhe ensinado cedo que ela nem sempre respeita o tempo das coisas, pra dizer o mínimo. 

Cresci conhecendo melhor o que podia dar errado do que a ideia de que a vida pudesse ser promissora. 

Chiquitita, tell me the truth

Por isso ha algo de estranho ao descobrir, décadas depois, que aquela musica que dizia ser para mim falava de tristeza, sim, mas sobretudo da possibilidade de sair dela. De dias melhores, de voltar a cantar. 

Penso agora que, através da canção, minha mae conseguiu me dizer o que nao conseguia com as próprias palavras. 

Não tenho certeza de que acreditava naquilo para si. Mas estou certa de que era o que desejava para mim. 

Há coisas que herdamos porque nossos pais as possuem:um jeito de rir, uma expressão,medos,uma receita, a tendência a guardar potes que provavelmente nunca terão utilidade. 

Outras chegam justamente do lugar da falta. 

Nao herdamos necessariamente aquilo que faltou a eles. Às vezes herdamos o desejo que nasceu ali. Uma direção para um lugar onde eles próprios nao conseguiram chegar. 

But the sun is still in the sky and shining above you

Talvez minha mae nao pudesse me dar a certeza de que a vida seria boa. Ninguém pode. Mas escolheu uma musica que insistia que depois da tristeza ainda seria possivel cantar outra vez. 

Descobri outra coincidência curiosa. Em aramaico abba significa pai. 

Nao significa nada para o nome da banda. Sao apenas as iniciais de Agnetha, Björn, Benny e Anni-Frid. 

Ainda bem. 

Algumas coincidências ficam melhores quando nao explicam coisa alguma.

 

quinta-feira, 20 de agosto de 2026

As pessoas como arquivo uma das outras

Eu tinha cinco anos quando observei pela primeira vez a poeira suspensa no ar.

Minha mae trocava os lençóis da cama que ficava sob uma janela. A luz entrava em feixes e eu, deitada, acompanhava as pequenas partículas que apareciam e desapareciam dentro deles.

Perguntei o que era. 

Anjinhos, minha mae respondeu.

Anos depois contei a ela essa história que se tornou uma das primeiras explicações do mundo pra mim.

Ela nao lembrava.

Essa cena, que tambem compunha a biografia dela, ficou guardada só comigo.

Outro dia reencontrei uma amiga que nao via ha anos. Em algum momento da conversa ela trouxe à tona uma lembrança que ja havia se apagado. Um hábito que eu tinha, uma expressão que costumava repetir, uma coisa pequena o bastante para ter desaparecido de mim e ainda assim permaneceu com ela.

Isso me faz pensar que parte da nossa biografia nao está conosco. Está espalhada com as pessoas que nos conheceram.

Histórias de vida que se atravessam, se afastam, voltam a se tocar e ja nao da mais pra saber exatamente onde termina uma e começa outra. Ha uma especie de troca de arquivos.

Talvez seja por isso que reencontrar alguem depois de muito tempo seja um pouco perigoso. A pessoa pode devolver coisas que não lembramos ter sido, partes nossas já deletadas ou que simplesmente não chegaram a ser armazenadas num depósito de lembranças e aquela outra versão, soa apenas muito estranha.

As vezes o que alguem nos devolve nao parece sequer uma lembrança. Parece outra pessoa. Uma versao antiga de nós mesmas.

m show, vi uma imagem de Lady Gaga jogando xadrez contra uma antiga versao de si mesma e fiquei pensando:

Se pudéssemos sentar diante de quem fomos, jogariamos com ela ou contra ela?

Nossas versões anteriores nao sao necessariamente versões das quais evoluímos ordenadamente.Algumas ainda provocam, seduzem, constrangem, contradizem. E as vezes basta alguem lembrar de alguma coisa para colocar uma delas de novo diante de nos.

No fim a vida parece ser, entre tantas coisas, um sistema de armazenamento improvisado onde andamos por aí com pedaços dos outros, memorias alheias, enquanto os outros tb levam consigo partes de nós.

quinta-feira, 6 de agosto de 2026

Sem alarde

Entre as inúmeras estranhezas do mundo, há esta: Às vezes a cidade acorda sem querer impressionar ninguém. Como se estivesse fazendo um manifesto - contra a glamourização da alta performance, em favor,  talvez,  da atenção. 

O ônibus passa no horário de sempre. O cachorro atravessa a rua no mesmo ponto. Uma mulher na padaria organiza os pães no balcão como se cada um tivesse o lugar exato. Uma senhora varre a calçada em movimentos lentos, como se não tivesse pressa em terminar. Um homem rega uma planta na sacada do terceiro andar, como se aquilo fosse suficiente para justificar a manhã.

Talvez seja. 

Há momentos em que passamos o  dia esperando que algo finalmente aconteça. Enquanto isso, uma folha gira alguns segundos antes de tocar o chão. O reflexo de uma janela transforma um prédio comum numa aquarela. O silêncio de alguém lendo num café ocupa o espaço sem pedir licença. 

Nada disso anuncia que algo extraordinário esteja se desenhando. No entanto, há uma sensação de que o mundo continua escrevendo uma história sem precisar levantar a voz. 

O cheiro do pão assando traz à tona uma memória gostosa. O gato olhando a rua pela janela recebe um aceno. Uma camisa esquecida no varal dançando ao vento faz a menina sorrir. O som de um skate descendo a rua interrompe uma conversa. O olhar de um adolescente sentado à janela de um ônibus desperta a curiosidade de alguém. 

Uma pessoa passa, pedalando devagar sua bicicleta, como se não estivesse atrasada para lugar nenhum. 

Há dias em que a cidade não faz alarde e, ainda assim, há tanto para ver. Tanto para viver.

terça-feira, 28 de julho de 2026

As cidades e a beleza disponível

 Nem toda incapacidade de reconhecer a beleza ao redor é uma fraqueza individual. 

Alguns lugares são de fato mais áridos que outros; ruas que convidam o olhar e ruas que fazem seguir adiante com pressa. 

Algumas ruas são arborizadas onde se passa por charmosos cafés, quem sabe uma floricultura também. Nelas talvez possamos ver um livro numa vitrine convidativa ou uma praça agradável em que se pode descansar por alguns minutos. 

Já em outras há fachadas sem cuidado, trânsito, outdoors intrusivos, fiação aparente. Caminhar por uma ou outra rua não produz a mesma experiência. 

Uma vez que nossas emoções se desenvolvem nas nossas experiências, deve-se a elas alguma importância. Um certo cuidado. 

Isso dito, convém também lembrar que é verdade que algumas sensibilidades para o belo florescem com mais facilidade quando encontram terreno fértil. Há pessoas que crescem cercadas por pequenas permissões para imaginar a vida de determinado modo. Nisso, o lugar onde estão costuma pesar. 

Me sinto perdida entre minhas paisagens internas quando finalmente lembro do livro “Cidades Invisíveis”, de Italo Calvino. 

Na obra, Marco Polo descreve cidades fantásticas ao imperador Kublai Khan. Aos poucos, porém, surge a suspeita de que fala sempre da mesma cidade observada por ângulos diferentes, como se cada lugar carregasse menos uma geografia fixa e mais uma maneira particular de olhar. 

Embora existam diferenças concretas entre os lugares que habitamos, também existe uma cidade interior que nos acompanha. Uma cidade feita de memórias, desejos, ausências, livros lidos, músicas e possibilidades imaginadas. 

Pessoas não são atravessadas pelas mesmas paisagens, o que é belo e trágico ao mesmo tempo. Ainda assim, existe uma parte da paisagem que cada um constrói dentro de si. E talvez a beleza surja justamente desse cruzamento entre o mundo que encontramos e aquele que aprendemos a sonhar.

quarta-feira, 22 de julho de 2026

Numa terça-feira qualquer

Há dias que não prometem nada de extraordinário. Uma lista de tarefas esperando sobre a mesa da cozinha; mais um dia de atendimentos e protocolos a serem executados no trabalho. Rotina.

Durante muito tempo vivi os dias comuns como se fossem uma sala de espera para acontecimentos que eu julgava serem mais importantes. Como se a beleza estivesse reservada somente às conquistas, viagens ou domingos ensolarados. Mas a maior parte da vida não acontece nesses intervalos. Ela acontece numa terça-feira qualquer.

Foi numa dessas terças-feiras que demorei mais tempo escolhendo o casaco do que pensando no dia que me esperava ou antecipando os compromissos da agenda.

Parecia um gesto sem importância. No entanto, talvez a maior parte da nossa existência seja feita justamente dessas pequenas decisões que não mudam o mundo, mas mudam a forma como o atravessamos.

Existe um tipo de beleza que não depende de férias, viagens ou grandes acontecimentos. Ela aparece também quando escolhemos uma roupa de que gostamos de vestir, ouvimos nossas músicas favoritas, passamos um café ou simplesmente caminhamos pela cidade prestando atenção à estação da vez, por exemplo.

Michel de Certeau, em A Invenção do Cotidiano, sugere que a vida comum está longe de ser apenas repetição. Mesmo quando quase tudo parece previamente determinado, ainda inventamos pequenas maneiras de habitar o nosso tempo - que é a vida em si. Há uma liberdade discreta na forma como caminhamos, olhamos e escolhemos viver aquilo que parecia apenas rotina.

Lembro dessa beleza também ao ler a crônica “Bonitas Mesmo” de Martha Medeiros: uma beleza que não espera a ocasião perfeita para existir. Ela mora nos dias úteis, nas pequenas pausas, nos rituais sem importância aparente. Não transforma a realidade, mas muda a experiência de quem a atravessa.

sábado, 11 de julho de 2026

As cidades dentro de nós

 “A imaginação não é uma fuga da realidade, mas  uma das formas de experimentá-la”. 

Nunca morei em Paris ou numa dessas cidades cinematográficas onde a beleza é quase banalizada, mas nao deixa de ser distribuída com generosidade entre livrarias, praças, floriculturas, museus famosos, belas vitrines, fachadas centenárias e bem cuidadas. 

Ha, porém, paisagens que chegam a nós antes mesmo da experiência. Através dos livros, filmes, fotografias, músicas ou até pelos sonhos. Quando percebemos elas já encontraram um lugar para morar dentro da gente. 

Pode ser por isso, que ao entrar numa cafeteria simples da minha cidade, sinto algo familiar. Não porque seja exatamente o que imaginei, mas porque nela encontro o mesmo espírito: uma mesa junto a janela, onde a xícara com cafe quente de alguem fumega e na bolsa entreaberta que repousa sobre a cadeira vazia, se vê um livro. Que história contaria? 

Uma cena clássica. 

A vida adulta ensina que nem todos os destinos estão ao nosso alcance, mas a imaginação continua distribuindo passaportes. E talvez sua maior gentileza seja essa: permitir que a gente esteja por alguns instantes em lugares onde nunca viveu - até descobrir que se trouxe um pedaço dessa paisagem para dentro da própria casa. 

Gosto de pensar que todos podemos ter  nossas cidades invisíveis. Lugares onde nunca moramos, mas que, mesmo de longe, ensinam o olhar. Entre paisagens inúmeras, um café visto num filme, uma livraria descrita num romance ou uma rua imaginada numa leitura. Quando finalmente encontramos algo parecido na vida real, quase nao sentimos estranhamento. Sentimos reconhecimento. É como retornar a uma cidade que só existe dentro de si.