O que sustenta uma amizade quando aquilo que a fundou ja nao existe?
Três começa com este mito: tres crianças, uma amizade capaz de sobreviver a tudo. É essa certeza q Perrin entrega ao tempo.
O que resta sao laços cuja matéria original - infância, adolescência, cumplicidade, sonhos compartilhados, a ideia de um futuro vivido juntos - desapareceu, mas cujo vínculo não desaparece inteiramente.
A questão nao é apenas “o que aconteceu com Adrien, Étiene e Nina”, mas como o passado continua organizando a vida deles muito depois de o trio ter deixado de existir como trio.
Perrin faz uma coisa curiosa em sua obra: adia informações, abre passado dentro de passado, muda o foco, insinua, volta… e, quando as peças começam a se encaixar, continua segurando.
Sentimos a paciência testada. A leitura começa a patinar nao por falta de interesse. Voce quer MUITO saber. O problema é que o livro sabe disso e fica fazendo rodeios.
É quase:
-Valérie, o que aconteceu?
- já chego lá, mas antes deixe-me contar mais uma coisa que houve em 1994…
-VALÉRIE.
O romance parece ser construído por adiamento. Quando uma linha narrativa finalmente chega perto de uma resposta - Adrien, 1986, o acidente, o que aconteceu entre os três - e cria uma urgência narrativa, Perrin abre outra gaveta. Conta outra história. Apresenta outra personagem. E pede que você tenha interesse nela.
E nos interessamos.
Esse vício é quase estrutural em Três: um recurso que funciona, mas que Perrin repete até quase esgotá-lo.
Só que esse incômodo não é inteiramente gratuito.
♡ Há algo, porem,nessa estrutura que repete, na forma, aquilo q o romance conta. Em Três o passado nunca fica exatamente onde deveria estar.Ele atravessa o presente o tempo inteiro.
A propria narrativa obedece esse movimento: quando o presente começa a avançar alguma coisa o puxa de volta. Uma lembrança, um personagem, um acontecimento aparentemente lateral.
Adrien,Étiene e Nina crescem, se afastam, constroem outras vidas mas continuam carregando versões uns dos outros que pertencem a outro tempo. A amizade já não existe da maneira como existiu um dia, mas continua organizando afetos, ressentimentos, silêncios e escolhas.