segunda-feira, 15 de junho de 2026

Jeanne Damas, Ítalo Calvino, as cidades e a beleza disponível


Nem toda incapacidade de reconhecer a beleza disponível ao redor é uma fraqueza individual. Às vezes, é apenas uma rotina exigente que deixa pouco espaço para o encantamento.

Além disso, existem lugares que são, de fato, mais áridos do que outros: fachadas sem cuidado, trânsito, fiação aparente, muros por todos os lados. Caminhar num lugar assim é muito diferente de caminhar por ruas arborizadas, onde se passa por cafés charmosos, uma floricultura, um livro na vitrine ou uma praça agradável onde é possível até descansar por alguns minutos.

Lugares assim existem? Alguém pode se perguntar. E, se existem, por que não posso estar lá?

Bem, nem todas as portas e destinos que se abrem ao longo da vida dependem de esforço individual.

Algumas coisas dependem do lugar onde nascemos, das pessoas que encontramos, dos recursos disponíveis, do repertório que conseguimos construir e das oportunidades que cruzam nosso caminho.

Penso em Jeanne Damas. 

Alguns projetos de vida só se tornam concebíveis a quem teve acesso a determinadas experiências. É por isso que dizemos que as pessoas não herdam apenas dinheiro. Herdam capital cultural, social e simbólico. Herdam referências, familiaridade com certos ambientes e até a sensação de que determinados caminhos são possíveis.

Penso  também em “As cidades invisíveis”, de Ítalo Calvino.

No livro, Marco Polo descreve cidades fantásticas ao imperador Kublai Khan. Aos poucos, porém, surge a suspeita de que ele fala sempre da mesma cidade, observada por ângulos diferentes. Como se cada lugar carregasse menos uma geografia fixa e mais uma maneira particular de olhar.

Talvez algo parecido aconteça conosco.

Porque, embora existam diferenças concretas entre os lugares que habitamos, também existe uma cidade interior que acompanha cada pessoa. Uma cidade feita de memórias, referências, desejos, perdas e possibilidades imaginadas.

Nem todos têm acesso às mesmas paisagens, às mesmas referências ou às mesmas oportunidades de encantamento. Ainda assim, existe sempre uma parte da cidade que é construída pelo olhar. E talvez seja nesse espaço, entre o que recebemos e o que imaginamos, que a beleza se torna possível.