sexta-feira, 5 de agosto de 2022
Pensando alto
quinta-feira, 4 de agosto de 2022
Mania de ler
segunda-feira, 1 de agosto de 2022
Só para mães
Observo como brinca no chão da sala de estar do nosso ap de faz-de-conta meu filho que está para completar dois anos de idade logo, logo. Dando funções novas a alguns objetos que o cercam, funções diferentes das usuais, ele se entretem por algum tempo abosorto. Os blocos magnéticos viram uma espécie de massa dentro de forminhas de silicone, ao que ele nomeia "fubá", referindo-se, deduzo, ao bolo que com alguma frequência fazemos juntos. Peças de lego, além de servirem para construir objetos variados que brincamos ser esculturas, quando não animaizinhos ou bonecos, automóveis, bem normal, se transformam também em "café" dentro do seu bule mágico. Noto ainda como ele começa a compreender as funções de uma ficção sempre que lemos um livro para ele. Também dá sinais de que percebe suas possíveis relações com a realidade. Outro dia mesmo, no mercado, foi um exemplo disso. Bibo, um coelho, é no momento seu personagem predileto. Apresentamos recentemente um amigo seu, Gildo, um elefante bastante corajoso, cujo um medo que tinha conseguiu superar. (As fábulas a que me refiro foram originalmente criadas pela escritora e ilustradora Silvana Rando e valem muito.)
Quem será, no entanto, meu filho, nos momentos em que não estou junto para acompanhar seus movimentos, me pergunto. Quero dizer em ambientes socais, que há bem pouco tempo passou a frequentar com reguluridade, como a escolinha por exemplo. É verdade que antes disso já haviam os parques, alguns restaurantes, o ambiente urbano que o circunda, as depedências do condomínio, a casa dos avós, de alguns amigos e parentes, nosso próprio lar, os lugares todos que visitamos e que formam os ambientes sociais que ele desde antes da escolinha já frequentava. Bem, quando estamos juntos vejo quase tudo: presto atenção com os olhos do sentido também e mesmo assim algumas coisas às vezes me escampam, pois, humana, tenho falhas. Não tenho olhos atrás da cabeça ou um braço nas costas, menos ainda, asas nos quadris. Ao correr, feliz, ele tropeça e cai. Chora, se machuca um pouco. Não vi. Que coisas piores possam acontecer num átimo de distração, meu Deus que o livre. Repito essas palavras em quase oração sem respirar para que dentro de mim elas ganhem em densidade e frutifiquem.
Que eu, no fim, não possa saber literalmente quem ele por inteiro é, especialmente quando não estamos juntos, faz parte do mistério que me seduz - mas não impede minha curiosidade de imaginar e questionar mesmo. Fico, bem mãe, pensando em como ele se comporta na hora do lanche com os coleguinhas na escola; se relciona bem com os profissionais da instituição; de que será mais gosta de brincar lá; quais são os gestos de que lança mão quando sugere algo para os seus mais novos amigos; que papéis assume junto à sua turminha, durante as brincadeiras; Faz birra longe de mim? Em que momentos prefere brincar sozinho; gosta de contemplar e brincar com a natureza do jardim ou passa mais tempo no parquinho, brincando de bola, casinha, balanço? Como explora os ambientes na minha ausência? Como está vivendo a relação com os outros? Como sorri quando olha para a professora? Para essas perguntas tenho as respostas, pois nossa comunicação com a escola que escolhemos para Otto é boa. Mesmo assim, existem aspectos dele, do todo que ele é, que seguem sendo um mistério para mim. E essa é a parte fantástica da história.
quinta-feira, 21 de julho de 2022
Berlim
Em julho de 2019 chegávamos em Berlin, esse canto do mundo onde ficamos por oito dias. Bem hospedados na Ilha dos Museus, distrito de Mitte, fizemos longos passeios que nos davam à vista, o Rio Spree. Do nosso hotel podíamos ir caminhando até o Bode Museun, o Pergamón e o Neues, onde vimos o Busto de Nefertite. Era pertinho. Um dos momentos de que me recordo com vivacidade é da nossa subida a Berliner Dom por dentro, imponente catedral, que em sua torre oferece um panorama fantástico da cidade. Para chegar lá sobe-se por estreitas e intermináveis escadarias, que em formas circulares nos desequilibram o labirinto, mas a recompensa é certa. Na mesma vibe, só que com menos esforço pois se sobe de elevador, visitamos a Fernsehturm logo depois de passar pelo famoso Relógio Mundial, o Weltzeituhr, na Alexanderplatz. Foi ali que vimos, numa noite, um brasileiro teatreiro apresentar sua arte no meio da praça repleta de espectadores que se sentavam aqui e ali para assistir a sua peça. Nós também ficamos e a assistimos até o fim, como se estivéssemos em casa.
Nosso tempo em Berlin nos trouxe momentos imprevisíveis em que ficamos absorvidos. Lembro-me aqui das espécies inusitadas de peixes e animais que vi no Aqua Dom & Cia, politicamente incorreto até, alguém poderia dizer. Da sensação que dá quando diante de um viveiro de inseto de tipo duvidoso se pára por um instante e olha; da perplexidade que se sente ao observar o modo de funcionamento de uma água-viva ou várias que flutuam no interior de um vidro gigantesco com água dentro a pouquíssimos centímetros de distância da gente. O mundo é surreal. Nem vou falar dos castelos. Do Palácio do Reichstag, do Tiergarten, do Portão de Brandemburgo. O Olympistadion. Lugares bastante comuns quando se pensa na capital da Alemanha. Não vou falar ainda do schnitzel deles que comi. Do spätzle deles também e da cerveja de banana que experimentei na Sony Plaza, bem turista. Precisaria de detalhes que não alcanço em palavras para descrever essas experiências.
Num dia de manhã, depois de deixar o hotel, alugamos uma bike elétrica e fomos visitar um aeroporto abandonado, o Tempelhof, que serve aos berlinenses como parque. Foi o passeio de que o Wagner mais gostou de fazer, ele diz. Eu também gostei, foi bastante contemplativo. No aeroporto abandonado observávamos o vazio enquanto não parávamos de pedalar. Era verão na Europa e fazia bastante calor.
A viagem terminou, mas as coisas não pararam de acontecer. Poucos meses depois veio a pandemia. Também tranquei a faculdade de Letras; tive um filho; mudei de profissão; afirmei meu casamento; mandei um e-mail para um escritor que admiro e ele me respondeu; consegui fazer uma receita que eu achava difícil; li livros de autores desconhecidos; investi em algumas ideias enquanto desistia de outras. Em Berlin eu só estava lá deixando que a vida fosse o que ela poderia ser. E ela foi maravilhosa. No fim eu só tinha duas ou uma certeza: quando amanhecesse voaríamos para Amsterdã. Segui em frente mesmo assim e já faz três anos.
terça-feira, 19 de julho de 2022
19 de julho
"Ler é como pensar, como rezar, como conversar com um amigo, como expor suas ideias, como ouvir a dos outros, como ouvir música, como contemplar uma paisagem, como dar um passeio pela praia".
Ao ler esse trecho famoso do livro 2666 do escritor chileno Roberto Bolaño (1953-2003) me acalmo: enquanto leio, faço muitas outras coisas também. Quantas vezes cativa de minha própria ficção, sinto-me liberta pelo ato da leitura dos livros que me rodeiam e que me abrem as portas e janelas da casa que sou. Sem mais estar encerrada, continuo a viver e vou para outros lugares, me desloco, ando por caminhos ainda não visitados, exploro, rio, choro, surpreendo-me e sinto tédio. Conheço personagens que ficam amigos - ou não, e que ajudam também a viver o mundo fora dos livros, onde, que sorte, temos amigos também. A arte cumpre seu papel. Movimento-me por entre as palavras e faço o espaço que me compreende expandir. Me coloco a praticar a vida possível, nela me reinvento, e assim sou feliz.
segunda-feira, 18 de julho de 2022
Deriva
Sempre seria alguém que
precisava aprender a
escrever.
Superado esse fato,
continuava escrevendo.
*
Sobre a pia a porcelana branca, lavada
o chão da casa, varrido
a roupa suja - posta para lavar
arquejava de dentro da máquina.
tudo pronto:
flores enfeitando a mesa.
se havia preparado
em detalhes
para receber
uma alegria nova.
*
Na manhã modorrenta
ficou recolhida dentro de um poema
e não viu quando o tempo
sem fazer alarde passou.
Sintetizou que foi uma morte necessária,
aquela das horas.
*
“Pois que nem tudo morre”,
leu numa crônica de Hilda Hilst.
E o resto do dia ainda estava lá:
o céu entardecendo,
a noite que viria,
a manhã depois dela.
Da janela de cortinas brancas
via a mesa,
o vinho, o jantar,
a companhia,
a criança brincando
no chão da sala.
Tudo ainda ali.
A vida correndo
sem fazer muito caso
de passar.
Depressa.
Pura Graça.
sábado, 16 de julho de 2022
Arpejos
Foi enquanto lia
Virginia Woolf
que vi a linha do horizonte
em página de livro se abrir
e iluminar em tomos
as cores do entardecer.
*
Ontem lembrei-me
de uma história antiga,
ainda vívida,
com alguma saudade.
Voltei ao livro já lido,
reli tudo
do início ao fim
e o deixei para trás.
*
Não era bobagem.
Era minha vontade
de ler
Ana Cristina César.
*
Revisada a lista
certifiquei o carrinho de compras
para o jantar hoje
só livros
escrito por mulheres
e um tim-tim.
*
Com o tempo
talvez a gente
aprenda
a aceitar os próprios limites
e aprenda
a respeitar a necessidade
que se tem
[escrever, ler, entrelinhas, viver]
do jeito que lhe for próprio,
mesmo que alguém
ache graça dessa formulação
pequena
e, rindo,
se ache maior
que ela.
quinta-feira, 14 de julho de 2022
Escrever e Manoel
Há dias
em que as palavras somem
e não consigo escrever.
Vira um tormentozinho silencioso.
A hora que vejo passar
em página branca
lânguida, vazia de mim, caçoa.
Então, de quebra, resolvo tomar de empréstimo
um poema de Manoel de Barros
para me defender e
tentar desafogar os sentimentos presos
que ficam.
Foi assim que
(Desafoguei uma alegria sucumbida.)
.
.
.
"O que não sei fazer desmancho em frases.
Eu fiz o nada aparecer.
(Represente que o homem é um poço escuro.
Aqui de cima não se vê nada.
Mas quando se chega ao fundo do poço já se pode ver o nada.)
Perder o nada é um empobrecimento."
BARROS, Manoel de. Livro sobre Nada. 14ª Ed. Rio de Janeiro: Record, 2009. p. 63
sexta-feira, 24 de junho de 2022
Trivial, mas nem tanto
Deixo para escrever depois porque primeiro preciso ler mais uma vez um conto de Lucia Berlin. Assim uso meu tempo livre que também é contado e mergulho não só em suas palavras como também no que elas me trazem. Amparada pela ideia de que ler é uma forma de escrever, me alivio dessa necessidade que surge incômoda. Enquanto leio penso na escritora Luizza Milczanowski, autora de "O Diálogo", que disse que os pensamentos também escrevem. O livro dela ainda não li mas quero. São tantos os quereres, penso um pouco cansada. Procuro me despertar. Às vezes acredito que posso adiar escolhas. Até virar em mais angústia. Então o desejo declina porque tanto não cabe. Aí, o vazio, nada. E o ciclo recomeça. Escolhas são feitas. Raciocínio lento. Se escrever é uma forma de dizer e se pensar é uma forma de escrever, de ambos os modos alguma coisa se faz. Paz. Abandono por hora minha meditação depois de ler e me concentro em outros aspectos práticos do dia pois preciso. Sobre a mesa vejo o livro "125 brincadeiras para crianças de 1 a 3 anos". O folheio de novo algo divertida com as páginas coloridas e escolho duas ou três atividades infantis para ter em mente. Mães precisam de cartas na manga. Muitas. E aprender sempre. Conheço mãe que acredita ter só aos filhos a ensinar. Mal sabem que assim se afundam em ignorância e afastam de si suas crias. Mas toda mãe merece ser perdoada. Merece, não? Largo de mão minha discussão interna e saio para me exercitar deixando meu pensamento ocupado com brincadeiras que no livrinho da Jackie Silberg descubro e deixo que se desdobrem em mim as suas faces - as faces do brincar. Em casa, alheio às minhas questões, na pia da cozinha, o feijão de molho espera o momento certo de ser cozido, mas eu nem penso nisso.
sexta-feira, 3 de junho de 2022
Da lembrança, o forno à lenha
Da cozinha aquecida lembro do forno à lenha da mãe de minha mãe. Da lenha, que áspera, com cuidado, colocávamos portinha de metal toda trabalhada a ferro e fogo adentro do braseiro. E a madeira ligeiro chamuscava. Pontinhos de brasa voavam e voltavam pro chão. Era bonito de ver. Eu me encantava equanto o fogo nos olhos brilhava. Bem ali um inferninho particular que nos servia a todos de maneiras variadas. O fogão aquecia a cozinha e no frio nos aquecíamos também. Seu crepitar sonorizava o café da manhã que era feito cedo. A labuta no campo tem um tempo todo seu que exige. Minha avó era exigida. Feita às águas com açúcar para acalmar.
Agora sento à mesa da minha cozinha também aquecida para escrever. Ainda não chegamos no inverno, mas já uso o aquecedor pela casa. Temos casas que no inverno são frias e no verão calorosas. Apesar de fazer sentido podia ser o contrário mas não é. Assim nos obrigamos a ir em busca de recursos para lidar com a situação e fazemos a economia girar, diria um capitalista. Volto à cozinha. Aqui me sinto acompanhada. De panelas? Dos ingredientes do prato que em seguida devo cozinhar? Pode ser que sim, brinco comigo mesma. Leio um poema de Adélia Prado. Trago o livro de crônicas de Nina Horta à mesa e me sirvo mais um café.
Lá fora o trânsito do mundo que exige também faz barulho. As pessoas que correm contra o tempo, apressadas, se esbarram. E eu que não estou à espera nem nada, sentada olhando pro relógio, fico em silêncio. Penso em minha avó e a faço reviver Im Memoriam bem aqui, nesse texto, que delicado, sai de mim.
![]() |
| Margaridas ou crisântemos? Flores do sítio onde morava minha avó |
sexta-feira, 27 de maio de 2022
Leitura amiga
Entre Nabokov e Noll, obras que nos últimos dias leio, ouço Zélia Duncan para aliviar o peso dos cânones e a tensão que sinto nas costas, logo abaixo dos ombros. A música ajuda e me reascende uma saudade afogada. noto que sinto falta de ler também "Desassossego", livro de Pessoa, como se sente falta de um amigo. Faço jus a minha falta e num arroubo, furtiva, o visito em meio a pressa. Encontro nas suas páginas palavras e descanso. Me sinto pronta para prosseguir. Em fé às vezes me movo. Mais tarde vou até o mercado da esquina para comprar os ingredientes da janta e no caminho me distraio com a beleza das flores que estão à venda e se mostram numa vitrine de floricultura. Mas não sou Mrs Dallowey e está tudo bem mesmo que alguns não me compreendam em momentos como esse. Deixo assim que o possível se projete, por hoje, sem mais. E não deixo de escutar, ao pé do ouvido, a letra da música de Duncan enquanto dou cabo à vida: "ser quem se é / aceitar o que não deu pra ser / receita para não sofrer / não ser perfeito mas ser você". (Continuar lendo).
quinta-feira, 26 de maio de 2022
A fúria de Noll: isto não é uma resenha
Li a obra "A Fúria do Corpo" do escritor gaúcho João Gilberto Noll depois de participar de um dos encontros online promovidos pela Casa Quarup a respeito do livro e de Noll. Na ocasião, muito especial, em que pude participar, um irmão do escritor também se fez presente enriquecendo ainda mais o encontro com suas palavras e presença. Antes daquele encontro, anos antes, eu já havia lido um artigo do jornalista e também escritor José Castello sobre Noll no seu livro "As Feridas de um leitor", de onde pego emprestado parte do título que leva este texto. E muito provocada por ele, quis ir a uma obra de Noll assim que conseguisse e cheguei hoje, afinal, à A Fúria.
Já tenho uma história com Noll.
"A Fúria do Corpo" de João Gilberto Noll (1946-2017) teve sua primeira edição publicada há 40 anos, em 1981. Escrita no fim da ditadura militar no Brasil a obra perfila, em diversos momentos, o modo como também a vida das personagens é atingida pelo regime. Mas esse é apenas um dos aspectos da obra que, em minha opinião de leitora comum, não acho que seja o principal embora atravesse de modo irremediável o centro de enredo: os corpos das personagens.
Obviamente esta não é uma resenha acadêmica mas a obra de Noll, a quem não sabe, é objeto de estudo acadêmico também e ouro no meio psicanalítico que sempre tem algo a mais a apontar. O que faz certo sentido porque é bastante difícil ler Noll sozinho. Algum texto de apoio, alguma orientação são eficazes para que o leitor continue firme seu mergulho na obra do referido escritor, que é ampla e rica em sentidos. No google acadêmico podemos acessar alguns desses textos que não são tão inúmeros quanto os de Clarice Lispector, muito popular nas cadeiras de humanas como em Literatura e Filosofia, mas estão lá. Aliás, pensa-se muito em Lispector e também em Virgínia Woolf enquanto se lê Noll.
Vamos então a um breve resumo que, mesmo sendo incompleto, pode conter spoilers.
Temos em "A Fúria do Corpo" um narrador-personagem sem nome que habita um contexto caótico e instável: a vida nas ruas da Cidade, Copacabana, onde perambula-se num vai-e-vem frenético tantas vezes sem direção. Esse é o panorama dado ao leitor e é de onde as cenas em que as personagens são constituídas e desveladas surgem em ritmo vertiginoso até o fim do livro. Mas não só isso. Há Afrodite, a coprotagonista, uma espécie de personagem-refletor, que, entendo, é quem dá o nome ao Amor que existe neste romance difícil. Além desses dois diversos outros personagens aparecem e vão tomando parte nessa estória que não permite que o leitor queira dormir em cima das páginas por ser carregada de aventuras alucinadas e angustiantes que de tão extremas, beiram o fastio. A estrutura em que o texto nos é apresentado, também não passa despercebida. Os longos longuíssimos períodos em parte significativa do tempo sem a pontuação esperada pelo leitor para facilitar a leitura, devolve a ele o trabalho de dar sentido ao texto lido.
Não sabemos exatamente como o personagem-narrador-sem-nome foi parar no ponto em que o encontramos. Mas mais para o fim da obra há uma menção dada ao que poderia ser sua família, um momento da sua vida de menino em que também o suicício de um primo acontece. Sabe-se, portanto, que há traumas (como na vida de todos, aliás). Mas, fragmentário, o relato nos é narrado e ficamos sem saber se ele é real ou se é um delírio - ficção dentro da ficção - do narrador que parece portar uma linguagem convulsa, quase verborrágica.
Ler "A fúria do corpo" é mergulhar, sem dúvida, nas entranhas do que pode vir a ser o desejo de alguém e se permitir não sair intocado dele. É, assim, um ato de coragem.
sábado, 21 de maio de 2022
A fúria que escoa
segunda-feira, 16 de maio de 2022
Meus desvios
Às vezes fico às voltas com os sentidos das palavras e as levo para passear entre outros contextos. Com a palavra desvios, que uso para nomear meu blog, não seria diferente. Penso no seu uso variável e acabo por achar que desvios é uma palavra lisa, escorregadia, pois tem múltiplos significados e pode tender a um ato transgressivo. Mas o sentido que gosto nela é o que entendo como mudança de rota, um movimento ou, dito de outro jeito, um modo de reconfirgurar algo que estava dado.
Tento desatar o nó que em mim essa palavra faz quando encontro por escrito uma conferência num livro que comprei em São Paulo, à venda no saguão do teatro Paulo Autran do SESC Pinheiros no ano de 2014. Na ocasião fomos assistir ao espetáculo "The Old Woman" (A Velha) dirigido pelo americano Robert Willson e encenado pelo bailarino Mikhail Baryshnikov e pelo ator bastante conhecido Willem Dafoe. A peça é uma adaptação da obra homônima do artista e poeta russo Daniil Kharms (1905-1942) cujo enredo da obra que ainda não li, mas que vi adaptada ao teatro, versa, em suma, sobre um homem - escritor - que é atormentando por uma velha.
A peça, algo complexa, foi um convite à construção de sentidos inesperados. A partir de imagens que vão sendo "pintadas" diante de um espectador estupefato, que pode contar com algumas legendas para se ajudar, o espetéculo se apresenta. Uma experiência sem par que me volta hoje como uma lembrança surreal em que vejo dois pitorescos personagens, corpos celestes, sentados num balanço que ancorado no nada de um lugar como deve ser o espaço sideral, em pêndulo, oscilam para frente e para trás. Conversam. Olham. Poetizam suas palavras e o olhar para o vazio, talvez o infinito.
Mas voltando à conferência que encontro dentro de um livro e que leio como quem assiste às palavras. Trata-se do capítulo "O tempo que nos resta" de Jean-Pierre Dupuy, um ensaio filosófico. Nele Dupuy vai falar sobre trabalho, riqueza, produtividade e sua relação com o nosso tempo. Citando de entrada Ivan Illich (1926-2002), um de seus mestres, para quem no modo de produção industral está fundamentada a lógica do desvio, Dupuy traz à tona também as ideias de Leibniz, um matemático alemão do século XIII, que, nas suas palavras, "defendia a tese de que, a exemplo de Deus, que criou o melhor dos mundos possíveis, o ser humano se caracteriza pela sua capacidade de fazer desvios para melhor atingir seus fins". E segue dando exemplos.
Pode até parecer, a um leitor distraído, que está tudo bem assim, na lógica do desvio como fundamento da sociedade industrial. Talvez até divertido. Mas há no texto a presença da inteligência de Ivan Illich, que ajuda a elucidar as coisas e que traz o conceito de contraprodutividade. Seguindo a leitura, através de Dupuy, vemos que Illich mostra como a inteligência humana pode ser por vezes contraprodutiva, criando para si problemas quando na busca de soluções, estúpida.
Ler esse texto de Dupuy me faz voltar para a palavra desvios que uso para nomear meu blog e me questionar. Quero com ele mais rápido me aproximar de uma suposta solução para alguma coisa? Ambiociono com ele um melhor resultado para algum problema que eventualmente eu tenha? Ou, ainda, o que de fato estou em busca de criar quando faço um desvio para escrever aqui em meio aos afazeres cotidianos que me aboservem o tempo. Um lugar a mais para a palavra ser, penso como resposta à minha própria indagação.
Lembro, simples, que uso o sentido de desvio aqui para me referir ao meu movimento para a palavra, sobretudo, escrita. Que escrever é sempre um risco, mas faço também um desvio do desconforto que ele evoca e sigo avançando. Só continuo. Por quanto tempo, se o tempo que me resta, não sei. Ler, assim como escrever, pode fazer a vida oxigenar e até brilhar de novo, como se tudo pudesse começar nesse ato outra vez. Tudo talvez seja muita coisa, eu sei. Mas quando uma história sim, isso já é bastante.
![]() |
| À espera do espetáculo "The Old Woman", no Teatro Paulo Autran, em 2014, São Paulo. |
quinta-feira, 12 de maio de 2022
Termas da Imperatriz
Decido me dar uma folga dos demais afazeres e termino de ler, pela manhã, O médico das termas, de Arthur Schnitzler, indicação de uma querida amiga do Rio. Depois saio para caminhar um pouco sob o sol de outono, que, entre todos, é o meu preferido.
No trajeto, quase não percebo a emergência lotada do hospital, o ar entediado da atendente da farmácia, o incessante vai e vem do trânsito barulhento, nem mesmo o enorme pedaço de carne abandonado na calçada, entregue às moscas e a apodrecer. Coisas que, em outro momento, se notadas, me perturbariam a alma e agitariam a mente.
Mas hoje não.
Sinto-me olhada pelo sol e sigo.
Ainda penso na leitura que acabo de deixar em casa. No modo como fui ocupada pelas personagens de Schnitzler, a ponto de entregar a elas algumas horas vazias da manhã, como se domada pelo enredo. Esse é um dos baratos dos livros: dentro deles, as coisas acontecem sem economia. As pessoas desejam, sofrem, hesitam, fazem escolhas ruins, mudam de ideia. E nós, leitores, somos arrastados junto. Não apenas pelas emoções das personagens, mas por aquelas que elas despertam em nós.
Essa ideia certamente não é minha. As ideias não têm dono, aliás, já dizia um filósofo que há tempos não visito.
Deixo para fazer uma resenha para outro momento. Escrevê-la talvez me ajude a guardar por mais tempo o Dr. Gräsler, Katharina, a emblemática Srta. Sabine, Friederike e a viúva Sommer. Por enquanto, o livro já me deixou outra coisa: uma vontade repentina de conhecer Santo Amaro da Imperatriz, cidade catarinense conhecida por suas águas termais. Acho que pode render um bom passeio em família.
Continuo andando.
Enquanto caminho, À la folie, da francesa Juliette Armanet, começa a tocar dentro da minha cabeça sem cessar, como se tivesse se oferecido para ser a trilha sonora daquela manhã — ou quisesse iluminar alguma reflexão que Schnitzler deixou por ali.
Gosto muito dessa música. Algo nela me pega. Se é o ritmo, a voz aguda, a letra, não sei. Mas, de repente, penso que ela ficaria ainda melhor na trilha de Amores Imaginários, do canadense Xavier Dolan, filme de que gostei muito quando assisti, anos atrás. Os dois têm alguma coisa em comum que não sei bem explicar.
E lá vai a memória outra vez, fazendo suas associações sem pedir licença: um livro austríaco, uma cidade de águas termais em Santa Catarina, uma cantora francesa, um filme canadense. E tudo isso numa caminhada qualquer sob o sol de outono.
A cabeça também passeia.
terça-feira, 10 de maio de 2022
Um dia após o outro
Ontem passei quase o dia inteiro administrando o próprio humor. Estava cansada, querendo sossego. Meu filho, com um ano e oito meses, passou a manhã choroso. Em algum momento me ocorreu que talvez ele estivesse chorando também um pouco por mim — aquilo que eu, adulta e civilizada, tratava de conter.
Percebi que estava mais sentimental do que de costume e fui atrás de uma reserva extra de paciência para lidar comigo mesma. Não sei se encontrei.
À tarde, meu filho dormiu. Eu não. Era Dia das Mães e, apesar dos sintomas pré-menstruais fazendo questão de participar da comemoração, eu estava feliz. Meu filho e meu companheiro estavam ali. Meus melhores presentes não precisavam de pacote.
Hoje acordei com vontade de desobedecer ao roteiro que havia preparado para o dia. Saí e caminhei por meia hora pelo bairro, sem outro propósito além de arejar a cabeça. O ar fresco batia no rosto, o sol da manhã também. Ainda não eram nove horas.
Depois parei na padaria da esquina para tomar um café.
Sentada ali, sem nenhuma urgência particular, pensei que talvez o tempo seja o maior luxo que conheço. Tempo para caminhar sem precisar chegar. Para tomar um café sem olhar o relógio. Para não produzir nada, resolver nada, melhorar nada.
Quero tanto assim?
Amanhã ainda tem algumas coisas que não sei como serão. Ultimamente, tenho descoberto que quase todos os dias têm.
Enquanto isso, a vida continua fazendo o que sabe: segue. E eu, quando consigo, tento não passar por ela depressa demais.
quinta-feira, 5 de maio de 2022
Os Restos & Rastros de Livia
Restos e Rastros de Lívia
Ps. Se você não for um leitor sentimental não recomendo a leitura do texto a seguir.
Conheci primeiro o marido - pelos livros. Durante a faculdade de Psicologia, nos anos 2000, li alguns textos de psicanálise de Luiz Alfredo Garcia-Roza, que guardei comigo até pouco tempo. Mais de duas décadas depois descubro a escrita de Lívia, sua esposa, também escritora e psicanalista. Restos & Rastros reúne alguns de seus pensamentos e despertou minha curiosidade durante uma conversa de Lívia com Regina Zappa e José Castello no programa Estação Sabiá, da TV 247.
Percebo, ao longo da conversa, que Restos & Rastros tem coisas importantes a me dizer. Gosto quando um livro começa a conversar conosco antes mesmo de chegar às nossas mãos. Encomendo o meu.
Já com o livro em casa, me detenho diante dele por um instante deixando de lado outras coisas que também preciso fazer.
Leio: “Os livros que amamos guardam um poder curativo”. Mais adiante: “Eu não tenho problema com a tristeza, talvez por isso eu seja alegre”. Algumas páginas depois, no capítulo “A segunda chance para viver”, o livro começa a mexer no que estava quieto: uma lembrança adormecida reaparece e, com ela, o velho Manoel de Barros.
Vou adiante.
Lendo Restos & Rastros deixo-me absorver pelas páginas. Ao ler o capítulo "Nossa força de reserva" rascunho no papel palavras que nunca ousei dizer em forma de poema. Me sinto fria.Calço meias e faço um chá. Volto para o sofá onde me encolho.Ainda me resta um tempo.
Continuo.
Sigo em frente com a leitura e o capítulo seguinte me aquece o olhar. Viro as páginas de susto em susto e penso que vou chorar mas só acho boba minha reação. Rio. Sinto a alegria de quando se encontra algo de bom e se quer guardar.
Há qualquer coisa nas palavras de Lívia que alcança tambem nossas lembranças: apazigua aquelas mais agitadas, revigora outras, as boas, que já andavam mortinhas.
Vou visitar Restos & Rastros ainda mais vezes. Algo sempre fica de uma leitura. E o que permanece dos restos dessa leitura me ajuda a reconhecer, nos rastros da propria vida, um caminho a seguir.
sábado, 30 de abril de 2022
Um sonho e Arthur Schnitzler
Culpada, me encaminhei até a igreja mais próxima. Lá localizei sem dificuldade, por sorte, o reverendo, que regava umas plantinhas como se desocupado. Mas não. Ele parecia gentil. Um olhar amigável, ao menos. Eles ainda existem, disse para mim mesma.
— Padre, confesso que pequei — falei sem demora.
— Diga, minha filha.
— Devorei biscoitos Tortinhas de chocolate acompanhadas de chá Matte Leão sabor morango enquanto tentava ler Arthur Schnitzler numa hora vaga do dia e achei tudo muito gostoso.
Acordei desse sonho no meio da noite e fiquei algum tempo mirando o escuro. Refiz a cena mentalmente, na esperança de não perdê-la ao romper da manhã, e adormeci novamente.
Perdi.
Dias se passaram até que, enquanto brincava com meu filho num parque da cidade, a lembrança me invadiu de repente. O sonho havia voltado.
Deixei-me ficar na companhia dos dois: do meu filho e do meu sonho, no meio do parque.
Otto brincava no escorregador. Antes de soltar as mãos e se deixar levar pela força da gravidade, olhava para mim e sorria com os olhos triunfantes.
Que sonho bobo, pensei. Algo desrespeitoso até. Mas não desonesto. Pelo menos isso.
Sem entrar naquele momento num labirinto de análises, ri um riso curto, que saiu mais parecido com uma expiração. Meu filho olhou para mim. Sorri de volta.
De onde estou, ainda consigo vê-lo subindo com habilidade as escadas do escorregador, entre as outras crianças. A lembrança me vem como se fosse presente e não passado.
O sol já ia se pondo e começava a ficar laranja. O entardecer combina mesmo com parque. O burburinho das crianças, levado pelo vento, espalhava-se pelo ar. Adultos caminhavam, corriam ou simplesmente ocupavam os bancos. No lago, patos deslizavam pela água enquanto tartarugas apareciam nas beiradas para receber os visitantes curiosos.
— Já está tarde — disse, quando olhei o relógio no celular.
Peguei meu filho no colo e caminhei até a saída.
O sonho veio conosco.
Em silêncio, eu ainda ria daquela graça só minha.
quinta-feira, 7 de abril de 2022
Isla Negra
Chegamos a Isla Negra debaixo de chuva e com um vento que
parecia ter alguma questão pessoal comigo. Foi assim que descemos do ônibus
vindo de Santiago: tentando segurar bolsas, casacos e o pouco de dignidade que
ainda nos restava.
No caminho, algumas placas indicavam a rota de fuga em caso
de tsunami. Fiquei assustada, claro. Mas também um pouco intrigada. Há
situações em que o medo e a curiosidade dividem o mesmo guarda-chuva — no meu
caso, um guarda-chuva preto que poucos minutos depois virou ao contrário e
desistiu de colaborar. Eram três da tarde, mas o céu escuro fazia parecer mais
tarde quando chegamos à casa de Pablo Neruda.
Ao entrarmos, soubemos que a tempestade havia
interrompido o fornecimento de energia. O museu estava mergulhado numa penumbra
cortada por algumas luzes de emergência. Pouco depois, acenderam velas. Minha
primeira preocupação, muito pouco poética, foi saber se a visita seria
cancelada.
Não foi.
Aos poucos, comecei a perceber que os contratempos
favoreciam a visita. A casa às escuras, a tempestade do lado de fora, os
objetos iluminados de maneira irregular: tudo parecia ganhar uma existência
mais secreta. Até meu mau humor começava a ceder.
As barras molhadas da calça congelavam minhas canelas.
Numa pequena janela, vi meu reflexo no vidro: o cabelo desfeito pelo vento, o
rosto pálido de frio. Lá fora, o mar fazia o que queria. Ondas se erguiam com o
vento e desabavam em espuma antes de escorrer pela areia. No ar, já não era
possível distinguir a água da chuva da água do mar. Era como se houvesse água demais no mundo naquele dia.
Dentro da casa-barco, avancei pela penumbra observando os
objetos reunidos por Neruda. Havia algo de indiscreto em percorrer os cômodos
de um homem morto, olhar seus móveis, seus quadros, as coisas que um dia ele
escolheu conservar. A falta de luz tornava tudo ainda mais íntimo, como se a
casa não estivesse inteiramente preparada para ser vista.
Detive-me diante de dois quadros na sala de jantar. Não
sei quanto tempo passei ali. Quando saí, o vento continuava firme, queimando
minhas bochechas e lançando meu cabelo em todas as direções. Por um instante, me senti uma criatura saída da tempestade.
No pequeno jardim junto à praia, uma âncora estava
parcialmente enterrada. Havia algo de mágico naquela imagem. Neruda amava o mar, mas não gostava de navegar. Talvez
a âncora dissesse alguma coisa sobre isso: era possível desejar o mar e, ainda
assim, permanecer em terra firme.
Ou talvez fosse apenas o meu jeito de olhar para ela.
As casas dos poetas tamém servem para isso: entramos por causa deles e saímos pensando em nós.
terça-feira, 5 de abril de 2022
A companhia de Isabel Allende
Gosto de pensar que os livros com seus personagens, cenários, contextos e escritores nos fazem companhia. E, de longe, essa não é uma ideia minha. Basta ler "Para que serve a leitura?" capítulo da obra "Ler o mundo" da antropóloga francesa Michèle Petit para ampliar esse modo de ver e perceber o quanto esta é uma ideia amplamente compartilhada por leitores. Entre outras coisas, diz Petit também que "ler serve ainda para encontrar uma força e uma intensidade que acalmam, um inesperado que faz reviver a atividade psíquica, o pensamento, a narração interior".
Foi assim, sentindo necessidade dessa companhia peculiar que encontramos quando abrimos um livro e nos envolvemos com as palavras que eles contém, que me aproximei de "A casa dos espíritos" da escritora Isabel Allende que já ocupava um lugar em minha estante há cerca de um ano.
Se fizermos uma busca rápida veremos que o ano da primeira publicação desta obra foi em 1982 e que também consta como livro amplamente reconhecido pelo público e pela crítica. Isabel Allende, escritora premiada, com obras traduzidas para diversos idiomas, de nacionalidade chilena embora tenha nascido em Lima no Peru, vive atualmente nos Estados Unidos (gosto sempre de me pôr a par desses detalhes também).
"A casa dos espíritos", livro que em 1993 virou filme nas mãos do diretor de cinema dinamarquês Bille August e que conta com atores com Meryl Streep, Antonio Banderas e Winona Ryder, nasceu durante o período de ditadura chilena (1973 - 1990), período histórico em que Salvador Allende, o então presidente do Chile, foi deposto de seu cargo por um golpe de Estado. Salvador Allende era primo-irmão do pai de Isabel, o diplomata Tomás Allende. "A casa dos espíritos" é um livro marcado, portanto, por esse período da história do Chile.
A obra que se estende ao longo de 464 páginas (tenho em mãos uma edição da "Coleção Folha - Grandes nomes da Literatura"), narra uma história que atravessa um século inteiro. O país que dá aos complexos personagens margens e um contexto geográfico tem sua identidade não revelada. O leitor sabe, no entanto, que a sucessão de acontecimentos se dá na América Latina, em algum lugar muito distante da Europa, onde está acontecendo uma guerra e da qual pouco se tem notícias.
Inicialmente tive alguma resistência para me entregar à leitura. Estava alhures, minha capacidade de concentração focada em outro lugar. Precisava relaxá-la um pouco de modo que fosse possível desviá-la para onde, naquele momento, eu a queria. Assim, insistente, agarrando-me em cada palavra, segui o ritmo das frases, atravessando parágrafos imergi páginas adentro e logo passei a integrar-me à obra que eu tinha nas mãos como que em processo de infusão e a li num fôlego compassado - quase sem parar.
Por um instante o clima inaugural deste livro transportou-me e trouxe à memória lembranças de Macondo, cidade fictícia de Cem Anos de Solidão (Gabriel Garcia Marquez). Um insight passageiro que me pôs em contato com o gênero do romance de Isabel Allende, o realismo mágico. Essas pontes sempre são interessantes para quem lê, mas é coisa quase inútil dizer.
A leitura vale muito!
Vou deixar aqui um link com uma resenha muito boa e completa de "A casa dos espíritos":
https://www.bonslivrosparaler.com.br/livros/resenhas/casa-dos-espiritos/5305

