quinta-feira, 24 de abril de 2025

Leituras: Do Banzeiro à Redoma & "Lugar Comum".

“Banzeiro é como o povo do Xingu chama o território de brabeza do rio. É onde com sorte se pode passar, com azar não. É um lugar de perigo entre o de onde se veio e o aonde se quer chegar”. 

É assim que nos inicia Eliane Brum nessa viagem-leitura com ela ao centro do mundo, Amazônia, lugar que adotou como casa desde 2017. Uma obra de jornalismo investigativo sobre a realidade que nos circunda e tantas vezes assombra, Banzeiro Òkòtó é mergulho em território de risco, corpo lançado na correnteza. Com relatos pessoais que enriquecem a experiência de leitura, Eliane deixa à mostra sua alma de poeta, mesmo, talvez, sem querer. Banzeiro deixou a esperança de quem enfrenta a correnteza e, ainda assim, segue.

Do Banzeiro da floresta, fui à redoma da mente com Sylvia Plath. Leio “Redoma de Vidro”, esse clássico da escritora norte-americana publicado pela primeira vez em 1963, com a sensação de que o sentimento de “antes tarde do que nunca” me encara. Sinto que sou lida pelo livro ao mesmo tempo em que o leio. Como na obra de Eliane há aqui também um perigo anunciado, que, ademais, tem a função de oferecer proteção. 

Redoma de Vidro me tocou com sua fragilidade pulsante - uma mulher que se sente sufocada pelas imposições do seu tempo; nem mesmo a escrita, que tanto lhe faz sentido, consegue salvá-la. Na obra acompanhamos a trajetória da jovem e talentosa Esther Greenwood, que vê declinar diante de uma depressão clínica. Irônico. Inteligente. Aflitivo. 

Essas foram minhas principais leituras das últimas semanas. Abril ja esta chegando ao fim e posso dizer que continuo às voltas com elas, que ainda estão ecoando. Sigo em estado de escuta. 

No livro “Lugar Comum”, da Nara Vidal, que até aqui não havia mencionado mas que não é menos importante por isso, encontrei vida: saudades, cheiro de terra molhada da chuva, café recém coado, casa de vó, vozes da infância, memórias. Um olhar que oferece paz. 

Cada livro, à sua maneira, abre uma fresta. É pelas frestas abertas por esses livros, que passo agora a ver o mundo também. 




 

domingo, 19 de janeiro de 2025

Ler o mundo

Ler por quê? 

Lança a questão Martha Medeiros em uma crônica do seu livro "Comigo na Livraria”. Ela mesma responde: “ler é básico porque nos ensina a escrever melhor, alarga nosso horizonte, nos diverte, emociona e nos coloca em contato com vivências nunca experimentadas, o que ajuda a minimizar preconceitos, a desenvolver a tolerância e a perceber as minúcias da nossa existência. Não me parece pouca coisa”. 

Assino embaixo. 

Já na obra “Ler o mundo” a francesa Michèle Petit escreveu que “tal é nossa sede de palavras, de narrativas, de configurações estéticas, que muitas vezes imaginamos descobrir um saber a respeito de nós mesmos fazendo os texto derivar de acordo com nossos caprichos, encontrando aquilo que o autor jamais imaginara ter posto ali”. 

Ler é, em si, um diálogo infinito e nunca se encerra no livro. 

Penso nos livros também como sementes, prontas para germinar em ideias, sentimentos e ações. Talvez seja isso o que dá sentido à leitura: não apenas consumir palavras, mas transformá-las em algo vivo dentro de nós.

Refletindo sobre isso, organizo minha estante de livros que se transformou num pequeno pandemônio. Separo alguns livros para doar. Um livro chega até nós num momento específico, ressoa em nossas experiências, tem algo a oferecer. Cumprido o seu papel pode partir para fertilizar, nutrir e inquietar outras mentes.  

Alguns ficam conosco por muito tempo.  

Me distraio e percorro com os olhos o contorno das lombadas. Observo os títulos como se fossem mapas de universos distintos. Demoro mais em alguns: “Uma fuga perfeita é sem volta” (Tiburi), “A melodia das coisas” (Rilke), “O espírito da prosa” (Tezza). Lembro dos dias em que foram lidos e das inquietações que tornaram aquelas páginas tão importantes pra mim. 

Enquanto a arrumação segue, percebo que os livros são mais que objetos. São ecos de quem fomos, somos e de quem ainda podemos vir a ser. Talvez, no fundo, o que fazemos com eles é sempre o mesmo: tentamos dar sentido e contorno àquilo q transborda em nós de modo que a paisagem interior - nossa dimensão subjetiva - se transforme numa espécie de estação mágica capaz de iluminar caminhos vida afora. 

Ler para esse fim já é um bom começo, Martha?