sexta-feira, 25 de setembro de 2026

Carta a uma jovem inquieta

“É o endereçamento que permite a escrita, mesmo quando disfarçada”.

Dentro de um caderninho de escrita, encontrei uma fotografia sua aos vinte anos. Demorei alguns segundos diante dela, tentando reconhecer, por trás daquele rosto tão familiar, o que esperava da vida. 


Ouso dizer que lembro melhor dos seus medos, do que dos seus planos. Sua pressa estava em acreditar que o tempo viria cobrar alguma coisa e que precisava estar pronta quando ele finalmente chegasse. 


Voce tinha medo de estar atrasada, de nao conseguir, nao alcançar. Eu tenho medo de nao conseguir preservar. Aos vinte a ansiedade era difusa, se espalhava pelo que ainda nao existia: um trabalho que fizesse sentido, o amor, a vida adulta, a pessoa que voce imaginava se tornar. Hoje ela é mais precisa. Tem nomes, rostos, horários. Está na saúde, no tempo, nos afetos. No equilíbrio delicado dos dias.


Não ficamos mais tranquilas com o passar dos anos. Apenas sabemos melhor agora o que temos mais medo de perder. 


E isso é bom. 


Conhecer o que temos medo de perder também nos mostra onde queremos ficar. 


Percebe? 


O medo só muda de assunto, mas vai estar sempre por perto. 


Você ainda acredita que com o tempo, as pessoas aprendem a falar o que sentem. Nao aprendem. E o nosso medo de exposição beira o ridículo. Os adultos sao fechados de um jeito quase cômico: É como querer ser encontrado, mas deixar o interfone quebrado. Eles medem o afeto, policiam a própria alegria. Retiram o ponto de exclamação, apagam um coração e demoram a responder para não parecerem disponíveis ou interessados demais. 


Aos vinte anos você não imaginava que o apocalipse chegaria tão depressa. Mas o mundo não acabou, embora às vezes tenha se esforçado para parecer que sim. Chegaram ao fim, porém, algumas versões nossas. 


Certas coisas foram embora pelo caminho; outras encontraram um modo de ficar. Aos vinte, conseguir era chegar. Aos quarenta, é permanecer. Conseguir continuar bem. 


Guardo sua fotografia novamente no caderno. Acho que já me alonguei bastante por ora, embora ainda temos o que falar. Antes de terminar, porém, uma última recomendação: não apague o coração antes de enviar. 

sexta-feira, 18 de setembro de 2026

IA

Outro dia me ocorreu que eu deveria incluir nos meus textos uma declaração de procedência: 

Ideia surgida durante um banho, numa caminhada ou num momento de ócio; memória antiga, de origem familiar; duas palavras encontradas num livro; inspiração vinda de um filme assistido; meus diários; uma frase discutida com a inteligência artificial (três sugestões recusadas); vírgulas conferidas por conta própria.  


Sou alguém que escreve e gosta dessa prática (às vezes mais, às vezes menos regular) desde criança, quando os diários vinham com chave. Uma vez minha mãe encontrou a chave que eu escondia e leu: “minha mãe estava uma chata hoje”. Ela ficou chateada comigo por causa do que escrevi. E eu fiquei achando que não servia para a escrita porque escrevia coisas feias. 


Mesmo sabendo que posso não servir à escrita, continuo escrevendo porque sei que sou eu que preciso dela, não ela de mim. Ser alguem que escreve e gosta de escrever, nao é o mesmo que ambicionar ser escritora. Escrever me faz bem. Gosto de acompanhar o momento em que algumas ideias antes espalhadas e sem compromisso umas com as outras, começam a formar um conjunto organizado. Sinto entao uma inquietação boa, a vontade de trocar algumas palavras de lugar, sentir o efeito, ver no que dá. 


Aprendi cedo que escrever uma frase e permitir que alguem a leia sao acontecimentos diferentes. Se hoje torno alguns textos publicos, tenho responsabilidade pelas palavras que solto no mundo - mas nao controlo o que o leitor faz com elas. 


Dito isso, vale lembrar que uma frase nunca vem exatamente do nada. 


Há muitos caminhos respeitáveis para chegar até elas. Formação de ponta, acesso a livros desde criança, viagens, amigos dispostos a ler suas primeiras versões. Tudo isso participa da escrita e tem nomes bonitos: repertório, formação  interlocução. 


Há, ainda, quem conte com as leituras possíveis, alguma vivência, vontade e uma conversa aberta - porem nao irrestrita - com a inteligência artificial. Nao vejo porque só certos recursos autorizariam alguem a tentar, enquanto outros exigiriam uma declaração de procedência. 


Sim. Sei que existe o uso indiscriminado de IA e as implicações disso. Me refiro aqui à outra coisa. 


Às vezes peço uma correção. Às vezes fazemos coisas mais complexas: discutimos campo semântico, relações entre ideias, camadas da linguagem, estrutura, tom, ou entramos numa extensa discussão sobre por que duas palavras quase sinônimas nao cumprem a mesma função num parágrafo. Ela responde com segurança, mesmo quando está errada. Característica que nao chega a ser exclusiva da maquina. 


Mas há uma questão mais interessante do que saber se alguem usou ou nao a ferramenta. Podemos reconhecer, principalmente em textos que circulam pela Internet, muitas vezes um tom que se repete. Às vezes semelhante, outras quase idêntico. 


Nao faz muito tempo reconheci, num texto eacrito por outra pessoa e lido na Internet, aquilo que passei a identificar como o tom da maquina. Nao sei se havia inteligência artificial ali. Aquela frase poderia ser minha. Reconheço na IA um modo de dizer que tambem poderia ser meu. 


É aí que a questão se complica: nao sei se a maquina esta interferindo no modo como escrevemos ou apenas aprendeu a reproduzir a linguagem que ja circulava entre nós. Fato é que desconfio agora mais de frases bonitas - inclusive das que escrevo sozinha. Mas rejeitá-las apenas porque se parecem com algo que a IA diria, seria rejeitar minha própria voz. 


De todo modo, uma voz nao esta apenas no tom ou nas características pelas quais um texto se torna reconhecível. Está tambem nas escolhas, nas recusas e nos desvios que o produzem. A maquina reproduz padrões. Quem escreve pode contrariar os próprios padrões e surpreender - ou nao. 


terça-feira, 1 de setembro de 2026

Notas de leitura: Três, Valérie Perrin

O que sustenta uma amizade quando aquilo que a fundou ja nao existe? 

Três começa com este mito: tres crianças, uma amizade capaz de sobreviver a tudo. É essa certeza q Perrin entrega ao tempo.  

O que resta sao laços cuja matéria original - infância, adolescência, cumplicidade, sonhos compartilhados, a ideia de um futuro vivido juntos - desapareceu, mas cujo vínculo não desaparece inteiramente. 

A questão, para Perrin, nao parece apenas ser “o que aconteceu com Adrien, Étiene e Nina”, mas como o passado continua organizando a vida deles muito depois de o trio ter deixado de existir como trio. 

Outro ponto que vale ser mencionado, pois caraceriza a obra, é o que a autora faz ao longo de toda a história - especialmente da metade para o fim: ela adia informações, abre passado dentro de passado, muda o foco, insinua, volta… e, quando as peças começam a se encaixar, continua segurando. 

Sentimos a paciência testada. A leitura começa a patinar nao por falta de interesse. Voce quer MUITO saber. O problema é que o livro sabe disso e fica fazendo rodeios. 

É quase: 

-Valérie, o que aconteceu?

- já chego lá, mas antes deixe-me contar mais uma coisa que houve em 1994…

-VALÉRIE. 

O romance parece ser construído por adiamento. Quando uma linha narrativa finalmente chega perto de uma resposta - Adrien, 1986, o acidente, o que aconteceu entre os três - e cria uma urgência narrativa, Perrin abre outra gaveta. Conta outra história. Apresenta outra personagem. E pede que você tenha interesse nela. 

E nos interessamos. 

Esse vício é quase estrutural em Três: um recurso que funciona, mas que Perrin repete até quase esgotá-lo. 

Só que esse incômodo não é inteiramente gratuito. 

♡ Há algo, porem,nessa estrutura que repete, na forma, aquilo q o romance conta. Em Três o passado nunca fica exatamente onde deveria estar.Ele atravessa o presente o tempo inteiro. 

A propria narrativa obedece esse movimento: quando o presente começa a avançar alguma coisa o puxa de volta. Uma lembrança, um personagem, um acontecimento aparentemente lateral. 

Adrien,Étiene e Nina crescem, se afastam, constroem outras vidas mas continuam carregando versões uns dos outros que pertencem a outro tempo. A amizade já não existe da maneira como existiu um dia, mas continua organizando afetos, ressentimentos, silêncios e escolhas.