sexta-feira, 6 de outubro de 2023

In memoriam


 Eu ainda era uma criança quando aconteceu em mim o primeiro registro da saudade. 

Da varanda da casa onde morava a minha avó eu pensava na minha mãe enquanto olhava uma estrela no escuro céu da noite. Mas era minha avó que estava comigo quando enfrentei aquele tipo de dor, que é como um fogo que arde sem se ver, pela primeira vez. 

O que me nela chamava minha atenção, lembro bem, eram suas mãos. Finas, delicadas, longos dedos. Em nada denunciavam os fardos que já havia levado pelo vida. 

Praticava ela algum tipo de magia para se manter daquele jeito, delicada? Não creio que tivesse tempo. Era uma mulher muito ocupada. Mas numa mesinha que havia na antessala da sua estilosa casinha eu sempre via um pequeno livro no qual constava o título "senhas diárias", seus óculos modelo gatinha retrô e uma bíblia fechada que de vez em quando ela abria para ler. 

Apesar de ter sido forçada a sair da escola muito cedo, ela não era analfabeta. 

Eu também a via entoar cânticose foi ela que me ensinou esta expressão em alemão "es tut mir sehr leid" enquanto enchíamos um latão de lemnha para colocar na fogueira do seu antigo fogão. 

"ES TUT MIR SEHR LEID" eu repetia sem parar achando que eram engraçadas essas palavras. Minha avó ria tamém. 

De manhãzinha, do sotão onde eu dormia, se ouvia uma sinfonia de panelas vinda da cozinha. Era ela que muito cedo fazia o dia começar. Eu descia feliz a escadaria daquele sótão aconchegante, pois sabia que me esperava na cozinha com delícias aromáticas e sua doce companhia. 

Numa noite em que eu tinha disficuldade para dormir porque no teto do meu quarto havia uma aranha minúscula, ela me chamou a atenção: agora chega. Mas aquilo não foi mais que um resmungo em alemão. Afinal, como podia admitir ela, uma mulher que enfrentou uma jararaca entre outras feras, uma neta que sentia medo de uma pequenina aranha?

É verdade que do embate com a jararaca restou-lhe uma ferida que nunca se transformou em cicatriz. Entretanto, não foi por isso que morreu. Ela morreu já bastante idosa, na cama da sua antiga casinha encantada, enquanto dormia. 

Não sei se foi tranquilo aquele momento para ela. Mas eu pude me despedir enquanto suas mãos de pianista eu segurava. Vi escorrer dos seus olhos uma lágrima mansa e sua boca, sem mais palavras, desfalecer. 

quinta-feira, 5 de outubro de 2023

O Convite


 Foi no meio de uma tempestade que chegou para mim o convite da maternidade. O recebi num fim de tarde enquanto tocava na sala de estar da nossa casa "Setembre", uma música da banda francesa La Femme, de quem meu marido gosta muito. Mas eu gosto mais de "Sphynx" e de "La vide est ton nouveau prénom", ambas do álum "Mystère". Nessa última sinto que há nela um choro contido e acho que seu ritmo etéreo acalma. 

Enquanto tocava "Septembre" sob a luz do abajour vintage, brilhava também uma velhinha acesa. Da janela se via uma tempestade grossa que caia de certo modo mansinha e escorria pela calçada até alcançar a boca-de-lobo que às vezes entope. 

Ela, a tempestade, era todinha azul. 

EStávamos no sofá e eu agitava em círculos a taça que segurava nas mãos , fazendo um pequeno furacão com o vinho que havia dentro dela. Senti os seus aromas e bebi um gole modesto. Me deixei ser abosorvida pelo instante. 

Nenhum carro passava na rua, apenas o som da chuva se ouvia e até La Femme parou de tocar não sei por quê. 

Foi nesse momento que me veio uma pergunta, mas foi no meu marido que ela se materializou: 

- vamos ter um filho?  Ele disse. 

Até ali o papel de mãe que sempre me assutou eu procrastinava deixando pra depois me pegou de um jeito que não pensei em nada mais. Eu quis muito e respondi que vamos. Que sim. Que vamos sim ter um filho. 

De repente o medo de perder a hora me invadiu, eu estava com trinta e quatro. É que sempre fui pontual com as coisas tamém. Herdei da minha mãe essa característica que acho chata, mas ela não é de se jogar fora. 

Pouco tempo depois daquela tarde chuvosa o meu filho chegou. 

E eu, que nunca me deixei seduzir pelo discurso de mães que repetem e repetem o quanto é maravilhoso ser mãe, pois sei o trabalho que dá cuidar de alguém de verdade, agora me vejo apaixnada nesse gurizinho. 

Ser mãe é algo como dançar na chuva ao invés de reclamar porque se está sem sombrinha. 

Foi assim que chegou para mim esse convite da vida e sulime.