quinta-feira, 30 de julho de 2026

Medíocres (Hacks): Para quem gosta de gente imperfeita

Ao terminar o primeiro episódio de Hacks, pensei: gostei, mas não sei exatamente por quê. 

Algumas experiências não pedem análise imediata. Elas pedem convivência. Um livro, uma amizade, uma cidade, uma música... às vezes a compreensão vem só algum tempo depois. 

Em poucas palavras: A série mostra mulheres tentando viver. Trabalhando. Errando. Criando vínculos. 

E eu, ao longo dos episódios, fui descobrindo o que me conquistou. 

As duas protagonistas são inteligentes. A série não trata nenhuma delas como caricatura: mocinha versus vilã. Deborah pode ser vaidosa e difícil, Ava pode ser impulsiva e arrogante, mas ambas têm talento. 

Deborah e Ava nao estão ali para salvar uma à outra. Elas competem, se irritam, aprendem e, aos poucos, vão revelando camadas que nao aparecem no primeiro episódio. 

Os diálogos têm ritmo. O humor nasce da personalidade delas, não de piadas soltas. 

O que costuma chamar minha atenção:

》A vulnerabilidade das personagens por trás da ironia. 

E “Medíocres” oferece isso aos montes. 

A série não pede que você tenha pena de Deborah. Em pequenos gestos, ela deixa escapar a solidão, o medo de envelhecer e a necessidade de continuar relevante.

Quem nunca conheceu alguém assim?

》um espelho ajuda a responder essa pergunta. 

E, finalmente, ela respeita o espectador. Não explica tudo nem força emoção. Como disse, você vai descobrindo com o tempo o que te prende nela. 

Já assistiu?




terça-feira, 28 de julho de 2026

As cidades e a beleza disponível

 Nem toda incapacidade de reconhecer a beleza ao redor é uma fraqueza individual. 

Alguns lugares são de fato mais áridos que outros; ruas que convidam o olhar e ruas que fazem seguir adiante com pressa. 

Algumas ruas são arborizadas onde se passa por charmosos cafés, quem sabe uma floricultura também. Nelas talvez possamos ver um livro numa vitrine convidativa ou uma praça agradável em que se pode descansar por alguns minutos. 

Já em outras há fachadas sem cuidado, trânsito, outdoors intrusivos, fiação aparente. Caminhar por uma ou outra rua não produz a mesma experiência. 

Uma vez que nossas emoções se desenvolvem nas nossas experiências, deve-se a elas alguma importância. Um certo cuidado. 

Isso dito, convém também lembrar que é verdade que algumas sensibilidades para o belo florescem com mais facilidade quando encontram terreno fértil. Há pessoas que crescem cercadas por pequenas permissões para imaginar a vida de determinado modo. Nisso, o lugar onde estão costuma pesar. 

Me sinto perdida entre minhas paisagens internas quando finalmente lembro do livro “Cidades Invisíveis”, de Italo Calvino. 

Na obra, Marco Polo descreve cidades fantásticas ao imperador Kublai Khan. Aos poucos, porém, surge a suspeita de que fala sempre da mesma cidade observada por ângulos diferentes, como se cada lugar carregasse menos uma geografia fixa e mais uma maneira particular de olhar. 

Embora existam diferenças concretas entre os lugares que habitamos, também existe uma cidade interior que nos acompanha. Uma cidade feita de memórias, desejos, ausências, livros lidos, músicas e possibilidades imaginadas. 

Pessoas não são atravessadas pelas mesmas paisagens, o que é belo e trágico ao mesmo tempo. Ainda assim, existe uma parte da paisagem que cada um constrói dentro de si. E talvez a beleza surja justamente desse cruzamento entre o mundo que encontramos e aquele que aprendemos a sonhar.

segunda-feira, 27 de julho de 2026

Antídoto Literário

 Durante muito tempo, desconfiei da leveza. 

Não formulei isso em voz alta. Apenas, por exemplo, escolhia livros que pareciam carregar sozinhos a gravidade da existência. Histórias sobre perdas, lutos, desencontros, memórias traumáticas. E estudando Psicologia passei anos aprendendo a escutar dores, conflitos, faltas. Aos poucos, fui acreditando que era ali, nas rachaduras da experiência humana, que a verdade morava.

Nas aulas de teatro, um professor insistia em me fazer rir.

Eu não entendia.

Hoje imagino que ele tenha percebido uma coisa antes de mim: eu confundia gravidade com profundidade.

“Para ser profundo não precisa ser triste”, ele me disse olhando nos olhos com o ar de deboche que lhe era costumeiro. Então, devolvendo o olhar, eu soltei da garganta a gargalhada presa num nó que ele parecia querer desatar. 

Confundir profundidade com gravidade é uma confusão curiosa. A gente olha para uma obra melancólica e já supõe que ela tenha algo mais a dizer. Como se a tristeza enxergasse mais longe. Como se o sofrimento fosse um atalho para a inteligência.

Foi lendo “Aos pés da letra” que percebi o antídoto de Gregório para esse mal. Ali um copo de leite derramado no chão poderia merecer tanta atenção quanto um tratado sobre a condição humana.

Não porque um copo de leite esconda uma grande metáfora. Mas porque a vida não respeita a hierarquia que inventamos para os nossos assuntos.

Ela apenas pergunta: há vida aqui?

Se houver, um copo de leite derramado basta.

Em Gregório, o humor é também uma forma de alcançar a profundidade. Gosto particularmente desse humor que ilumina, não daquele que banaliza. Em “Aos pés da Letra” encontrei uma pausa de a-pro-fundar para arejar. Sua leitura foi como um remédio - não contra a melancolia, que continua tendo o seu lugar, mas contra a ideia de que ela detém o monopólio do que é mais profundo. 

Durante muito tempo desconfiei da leveza. 

Hoje começo a desconfiar justamente da ideia de que só o peso das coisas é que revela a verdade. Às vezes, uma pitada de humor é suficiente para seguir adiante, sem deixar de ir fundo.




quarta-feira, 22 de julho de 2026

Numa terça-feira qualquer

Há dias que não prometem nada de extraordinário. Uma lista de tarefas esperando sobre a mesa da cozinha; mais um dia de atendimentos e protocolos a serem executados no trabalho. Rotina.

Durante muito tempo vivi os dias comuns como se fossem uma sala de espera para acontecimentos que eu julgava serem mais importantes. Como se a beleza estivesse reservada somente às conquistas, viagens ou domingos ensolarados. Mas a maior parte da vida não acontece nesses intervalos. Ela acontece numa terça-feira qualquer.

Foi numa dessas terças-feiras que demorei mais tempo escolhendo o casaco do que pensando no dia que me esperava ou antecipando os compromissos da agenda.

Parecia um gesto sem importância. No entanto, talvez a maior parte da nossa existência seja feita justamente dessas pequenas decisões que não mudam o mundo, mas mudam a forma como o atravessamos.

Existe um tipo de beleza que não depende de férias, viagens ou grandes acontecimentos. Ela aparece também quando escolhemos uma roupa de que gostamos de vestir, ouvimos nossas músicas favoritas, passamos um café ou simplesmente caminhamos pela cidade prestando atenção à estação da vez, por exemplo.

Michel de Certeau, em A Invenção do Cotidiano, sugere que a vida comum está longe de ser apenas repetição. Mesmo quando quase tudo parece previamente determinado, ainda inventamos pequenas maneiras de habitar o nosso tempo - que é a vida em si. Há uma liberdade discreta na forma como caminhamos, olhamos e escolhemos viver aquilo que parecia apenas rotina.

Lembro dessa beleza também ao ler a crônica “Bonitas Mesmo” de Martha Medeiros: uma beleza que não espera a ocasião perfeita para existir. Ela mora nos dias úteis, nas pequenas pausas, nos rituais sem importância aparente. Não transforma a realidade, mas muda a experiência de quem a atravessa.

sábado, 11 de julho de 2026

As cidades dentro de nós

 “A imaginação não é uma fuga da realidade, mas  uma das formas de experimentá-la”. 

Nunca morei em Paris ou numa dessas cidades cinematográficas onde a beleza é quase banalizada, mas nao deixa de ser distribuída com generosidade entre livrarias, praças, floriculturas, museus famosos, belas vitrines, fachadas centenárias e bem cuidadas. 

Ha, porém, paisagens que chegam a nós antes mesmo da experiência. Através dos livros, filmes, fotografias, músicas ou até pelos sonhos. Quando percebemos elas já encontraram um lugar para morar dentro da gente. 

Pode ser por isso, que ao entrar numa cafeteria simples da minha cidade, sinto algo familiar. Não porque seja exatamente o que imaginei, mas porque nela encontro o mesmo espírito: uma mesa junto a janela, onde a xícara com cafe quente de alguem fumega e na bolsa entreaberta que repousa sobre a cadeira vazia, se vê um livro. Que história contaria? 

Uma cena clássica. 

A vida adulta ensina que nem todos os destinos estão ao nosso alcance, mas a imaginação continua distribuindo passaportes. E talvez sua maior gentileza seja essa: permitir que a gente esteja por alguns instantes em lugares onde nunca viveu - até descobrir que se trouxe um pedaço dessa paisagem para dentro da própria casa. 

Gosto de pensar que todos podemos ter  nossas cidades invisíveis. Lugares onde nunca moramos, mas que, mesmo de longe, ensinam o olhar. Entre paisagens inúmeras, um café visto num filme, uma livraria descrita num romance ou uma rua imaginada numa leitura. Quando finalmente encontramos algo parecido na vida real, quase nao sentimos estranhamento. Sentimos reconhecimento. É como retornar a uma cidade que só existe dentro de si.