terça-feira, 28 de julho de 2026

As cidades e a beleza disponível

 Nem toda incapacidade de reconhecer a beleza ao redor é uma fraqueza individual. 

Alguns lugares são de fato mais áridos que outros; ruas que convidam o olhar e ruas que fazem seguir adiante com pressa. 

Algumas ruas são arborizadas onde se passa por charmosos cafés, quem sabe uma floricultura também. Nelas talvez possamos ver um livro numa vitrine convidativa ou uma praça agradável em que se pode descansar por alguns minutos. 

Já em outras há fachadas sem cuidado, trânsito, outdoors intrusivos, fiação aparente. Caminhar por uma ou outra rua não produz a mesma experiência. 

Uma vez que nossas emoções se desenvolvem nas nossas experiências, deve-se a elas alguma importância. Um certo cuidado. 

Isso dito, convém também lembrar que é verdade que algumas sensibilidades para o belo florescem com mais facilidade quando encontram terreno fértil. Há pessoas que crescem cercadas por pequenas permissões para imaginar a vida de determinado modo. Nisso, o lugar onde estão costuma pesar. 

Me sinto perdida entre minhas paisagens internas quando finalmente lembro do livro “Cidades Invisíveis”, de Italo Calvino. 

Na obra, Marco Polo descreve cidades fantásticas ao imperador Kublai Khan. Aos poucos, porém, surge a suspeita de que fala sempre da mesma cidade observada por ângulos diferentes, como se cada lugar carregasse menos uma geografia fixa e mais uma maneira particular de olhar. 

Embora existam diferenças concretas entre os lugares que habitamos, também existe uma cidade interior que nos acompanha. Uma cidade feita de memórias, desejos, ausências, livros lidos, músicas e possibilidades imaginadas. 

Pessoas não são atravessadas pelas mesmas paisagens, o que é belo e trágico ao mesmo tempo. Ainda assim, existe uma parte da paisagem que cada um constrói dentro de si. E talvez a beleza surja justamente desse cruzamento entre o mundo que encontramos e aquele que aprendemos a sonhar.

quarta-feira, 22 de julho de 2026

Numa terça-feira qualquer

Há dias que não prometem nada de extraordinário. Uma lista de tarefas esperando sobre a mesa da cozinha; mais um dia de atendimentos e protocolos a serem executados no trabalho. Rotina.

Durante muito tempo vivi os dias comuns como se fossem uma sala de espera para acontecimentos que eu julgava serem mais importantes. Como se a beleza estivesse reservada somente às conquistas, viagens ou domingos ensolarados. Mas a maior parte da vida não acontece nesses intervalos. Ela acontece numa terça-feira qualquer.

Foi numa dessas terças-feiras que demorei mais tempo escolhendo o casaco do que pensando no dia que me esperava ou antecipando os compromissos da agenda.

Parecia um gesto sem importância. No entanto, talvez a maior parte da nossa existência seja feita justamente dessas pequenas decisões que não mudam o mundo, mas mudam a forma como o atravessamos.

Existe um tipo de beleza que não depende de férias, viagens ou grandes acontecimentos. Ela aparece também quando escolhemos uma roupa de que gostamos de vestir, ouvimos nossas músicas favoritas, passamos um café ou simplesmente caminhamos pela cidade prestando atenção à estação da vez, por exemplo.

Michel de Certeau, em A Invenção do Cotidiano, sugere que a vida comum está longe de ser apenas repetição. Mesmo quando quase tudo parece previamente determinado, ainda inventamos pequenas maneiras de habitar o nosso tempo - que é a vida em si. Há uma liberdade discreta na forma como caminhamos, olhamos e escolhemos viver aquilo que parecia apenas rotina.

Lembro dessa beleza também ao ler a crônica “Bonitas Mesmo” de Martha Medeiros: uma beleza que não espera a ocasião perfeita para existir. Ela mora nos dias úteis, nas pequenas pausas, nos rituais sem importância aparente. Não transforma a realidade, mas muda a experiência de quem a atravessa.

sábado, 11 de julho de 2026

As cidades dentro de nós

 “A imaginação não é uma fuga da realidade, mas  uma das formas de experimentá-la”. 

Nunca morei em Paris ou numa dessas cidades cinematográficas onde a beleza é quase banalizada, mas nao deixa de ser distribuída com generosidade entre livrarias, praças, floriculturas, museus famosos, belas vitrines, fachadas centenárias e bem cuidadas. 

Ha, porém, paisagens que chegam a nós antes mesmo da experiência. Através dos livros, filmes, fotografias, músicas ou até pelos sonhos. Quando percebemos elas já encontraram um lugar para morar dentro da gente. 

Pode ser por isso, que ao entrar numa cafeteria simples da minha cidade, sinto algo familiar. Não porque seja exatamente o que imaginei, mas porque nela encontro o mesmo espírito: uma mesa junto a janela, onde a xícara com cafe quente de alguem fumega e na bolsa entreaberta que repousa sobre a cadeira vazia, se vê um livro. Que história contaria? 

Uma cena clássica. 

A vida adulta ensina que nem todos os destinos estão ao nosso alcance, mas a imaginação continua distribuindo passaportes. E talvez sua maior gentileza seja essa: permitir que a gente esteja por alguns instantes em lugares onde nunca viveu - até descobrir que se trouxe um pedaço dessa paisagem para dentro da própria casa. 

Gosto de pensar que todos podemos ter  nossas cidades invisíveis. Lugares onde nunca moramos, mas que, mesmo de longe, ensinam o olhar. Entre paisagens inúmeras, um café visto num filme, uma livraria descrita num romance ou uma rua imaginada numa leitura. Quando finalmente encontramos algo parecido na vida real, quase nao sentimos estranhamento. Sentimos reconhecimento. É como retornar a uma cidade que só existe dentro de si.