sábado, 29 de agosto de 2026

O que herdamos

Eu estava indo para o trabalho quando começou a tocar “Dancing Queen” do ABBA. Foi quando me lembrei de uma música esquecida. 

Chiquitita, tell me what's wrong. 

Fui procurá-la e, enquanto tocava, lembrei que minha mae dizia que ela era para mim. 

I can see that you're so sad, so quiet. 

Na infância, aceitei a dedicatória sem fazer muitas perguntas. Crianças parecem saber viver melhor com certas coisas sem precisar entendê-las. Uma música podia simplesmente ser minha. 

Só agora me ocorreu prestar atenção no que ela dizia. 

Não via a minha mãe exatamente como uma pessoa otimista. A vida, para ela, parecia uma coisa não muito gentil. Sua história havia lhe ensinado cedo que ela nem sempre respeita o tempo das coisas, pra dizer o mínimo. 

Cresci conhecendo melhor o que podia dar errado do que a ideia de que a vida pudesse ser promissora. 

Chiquitita, tell me the truth

Por isso ha algo de estranho ao descobrir, décadas depois, que aquela musica que dizia ser para mim falava de tristeza, sim, mas sobretudo da possibilidade de sair dela. De dias melhores, de voltar a cantar. 

Penso agora que, através da canção, minha mae conseguiu me dizer o que nao conseguia com as próprias palavras. 

Não tenho certeza de que acreditava naquilo para si. Mas estou certa de que era o que desejava para mim. 

Há coisas que herdamos porque nossos pais as possuem:um jeito de rir, uma expressão,medos,uma receita, a tendência a guardar potes que provavelmente nunca terão utilidade. 

Outras chegam justamente do lugar da falta. 

Nao herdamos necessariamente aquilo que faltou a eles. Às vezes herdamos o desejo que nasceu ali. Uma direção para um lugar onde eles próprios nao conseguiram chegar. 

But the sun is still in the sky and shining above you

Talvez minha mae nao pudesse me dar a certeza de que a vida seria boa. Ninguém pode. Mas escolheu uma musica que insistia que depois da tristeza ainda seria possivel cantar outra vez. 

Descobri outra coincidência curiosa. Em aramaico abba significa pai. 

Nao significa nada para o nome da banda. Sao apenas as iniciais de Agnetha, Björn, Benny e Anni-Frid. 

Ainda bem. 

Algumas coincidências ficam melhores quando nao explicam coisa alguma.

 

quinta-feira, 20 de agosto de 2026

As pessoas como arquivo uma das outras

Eu tinha cinco anos quando observei pela primeira vez a poeira suspensa no ar.

Minha mae trocava os lençóis da cama que ficava sob uma janela. A luz entrava em feixes e eu, deitada, acompanhava as pequenas partículas que apareciam e desapareciam dentro deles.

Perguntei o que era. 

Anjinhos, minha mae respondeu.

Anos depois contei a ela essa história que se tornou uma das primeiras explicações do mundo pra mim.

Ela nao lembrava.

Essa cena, que tambem compunha a biografia dela, ficou guardada só comigo.

Outro dia reencontrei uma amiga que nao via ha anos. Em algum momento da conversa ela trouxe à tona uma lembrança que ja havia se apagado. Um hábito que eu tinha, uma expressão que costumava repetir, uma coisa pequena o bastante para ter desaparecido de mim e ainda assim permaneceu com ela.

Isso me faz pensar que parte da nossa biografia nao está conosco. Está espalhada com as pessoas que nos conheceram.

Histórias de vida que se atravessam, se afastam, voltam a se tocar e ja nao da mais pra saber exatamente onde termina uma e começa outra. Ha uma especie de troca de arquivos.

Talvez seja por isso que reencontrar alguem depois de muito tempo seja um pouco perigoso. A pessoa pode devolver coisas que não lembramos ter sido, partes nossas já deletadas ou que simplesmente não chegaram a ser armazenadas num depósito de lembranças e aquela outra versão, soa apenas muito estranha.

As vezes o que alguem nos devolve nao parece sequer uma lembrança. Parece outra pessoa. Uma versao antiga de nós mesmas.

m show, vi uma imagem de Lady Gaga jogando xadrez contra uma antiga versao de si mesma e fiquei pensando:

Se pudéssemos sentar diante de quem fomos, jogariamos com ela ou contra ela?

Nossas versões anteriores nao sao necessariamente versões das quais evoluímos ordenadamente.Algumas ainda provocam, seduzem, constrangem, contradizem. E as vezes basta alguem lembrar de alguma coisa para colocar uma delas de novo diante de nos.

No fim a vida parece ser, entre tantas coisas, um sistema de armazenamento improvisado onde andamos por aí com pedaços dos outros, memorias alheias, enquanto os outros tb levam consigo partes de nós.

quinta-feira, 6 de agosto de 2026

Sem alarde

Entre as inúmeras estranhezas do mundo, há esta: Às vezes a cidade acorda sem querer impressionar ninguém. Como se estivesse fazendo um manifesto - contra a glamourização da alta performance, em favor,  talvez,  da atenção. 

O ônibus passa no horário de sempre. O cachorro atravessa a rua no mesmo ponto. Uma mulher na padaria organiza os pães no balcão como se cada um tivesse o lugar exato. Uma senhora varre a calçada em movimentos lentos, como se não tivesse pressa em terminar. Um homem rega uma planta na sacada do terceiro andar, como se aquilo fosse suficiente para justificar a manhã.

Talvez seja. 

Há momentos em que passamos o  dia esperando que algo finalmente aconteça. Enquanto isso, uma folha gira alguns segundos antes de tocar o chão. O reflexo de uma janela transforma um prédio comum numa aquarela. O silêncio de alguém lendo num café ocupa o espaço sem pedir licença. 

Nada disso anuncia que algo extraordinário esteja se desenhando. No entanto, há uma sensação de que o mundo continua escrevendo uma história sem precisar levantar a voz. 

O cheiro do pão assando traz à tona uma memória gostosa. O gato olhando a rua pela janela recebe um aceno. Uma camisa esquecida no varal dançando ao vento faz a menina sorrir. O som de um skate descendo a rua interrompe uma conversa. O olhar de um adolescente sentado à janela de um ônibus desperta a curiosidade de alguém. 

Uma pessoa passa, pedalando devagar sua bicicleta, como se não estivesse atrasada para lugar nenhum. 

Há dias em que a cidade não faz alarde e, ainda assim, há tanto para ver. Tanto para viver.