Foi no meio de uma tempestade que chegou para mim o convite da maternidade. O recebi num fim de tarde enquanto tocava na sala de estar da nossa casa "Setembre", uma música da banda francesa La Femme, de quem meu marido gosta muito. Mas eu gosto mais de "Sphynx" e de "La vide est ton nouveau prénom", ambas do álum "Mystère". Nessa última sinto que há nela um choro contido e acho que seu ritmo etéreo acalma.
Enquanto tocava "Septembre" sob a luz do abajour vintage, brilhava também uma velhinha acesa. Da janela se via uma tempestade grossa que caia de certo modo mansinha e escorria pela calçada até alcançar a boca-de-lobo que às vezes entope.
Ela, a tempestade, era todinha azul.
EStávamos no sofá e eu agitava em círculos a taça que segurava nas mãos , fazendo um pequeno furacão com o vinho que havia dentro dela. Senti os seus aromas e bebi um gole modesto. Me deixei ser abosorvida pelo instante.
Nenhum carro passava na rua, apenas o som da chuva se ouvia e até La Femme parou de tocar não sei por quê.
Foi nesse momento que me veio uma pergunta, mas foi no meu marido que ela se materializou:
- vamos ter um filho? Ele disse.
Até ali o papel de mãe que sempre me assutou eu procrastinava deixando pra depois me pegou de um jeito que não pensei em nada mais. Eu quis muito e respondi que vamos. Que sim. Que vamos sim ter um filho.
De repente o medo de perder a hora me invadiu, eu estava com trinta e quatro. É que sempre fui pontual com as coisas tamém. Herdei da minha mãe essa característica que acho chata, mas ela não é de se jogar fora.
Pouco tempo depois daquela tarde chuvosa o meu filho chegou.
E eu, que nunca me deixei seduzir pelo discurso de mães que repetem e repetem o quanto é maravilhoso ser mãe, pois sei o trabalho que dá cuidar de alguém de verdade, agora me vejo apaixnada nesse gurizinho.
Ser mãe é algo como dançar na chuva ao invés de reclamar porque se está sem sombrinha.
Foi assim que chegou para mim esse convite da vida e sulime.

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