Enquanto tocava "Septembre" sob a luz do abajour vintage, brilhava também uma velhinha acesa. Da janela se via uma tempestade grossa que caia de certo modo mansinha e escorria pela calçada até alcançar a boca-de-lobo que às vezes entope.
Ela, a tempestade, era todinha azul.
EStávamos no sofá e eu agitava em círculos a taça que segurava nas mãos , fazendo um pequeno furacão com o vinho que havia dentro dela. Senti os seus aromas e bebi um gole modesto. Me deixei ser abosorvida pelo instante.
Nenhum carro passava na rua, apenas o som da chuva se ouvia e até La Femme parou de tocar não sei por quê.
Foi nesse momento que me veio uma pergunta, mas foi no meu marido que ela se materializou:
- vamos ter um filho? Ele disse.
Até ali o papel de mãe que sempre me assutou eu procrastinava deixando pra depois me pegou de um jeito que não pensei em nada mais. Eu quis muito e respondi que vamos. Que sim. Que vamos sim ter um filho.
De repente o medo de perder a hora me invadiu, eu estava com trinta e quatro. É que sempre fui pontual com as coisas tamém. Herdei da minha mãe essa característica que acho chata, mas ela não é de se jogar fora.
Pouco tempo depois daquela tarde chuvosa o meu filho chegou.
E eu, que nunca me deixei seduzir pelo discurso de mães que repetem e repetem o quanto é maravilhoso ser mãe, pois sei o trabalho que dá cuidar de alguém de verdade, agora me vejo apaixnada nesse gurizinho.
Ser mãe é algo como dançar na chuva ao invés de reclamar porque se está sem sombrinha.
Foi assim que chegou para mim esse convite da vida e sulime.
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