domingo, 19 de janeiro de 2025

Ler o mundo

Ler por quê? 

Lança a questão Martha Medeiros em uma crônica do seu livro "Comigo na Livraria”. Ela mesma responde: “ler é básico porque nos ensina a escrever melhor, alarga nosso horizonte, nos diverte, emociona e nos coloca em contato com vivências nunca experimentadas, o que ajuda a minimizar preconceitos, a desenvolver a tolerância e a perceber as minúcias da nossa existência. Não me parece pouca coisa”. 

Assino embaixo. 

Já na obra “Ler o mundo” a francesa Michèle Petit escreveu que “tal é nossa sede de palavras, de narrativas, de configurações estéticas, que muitas vezes imaginamos descobrir um saber a respeito de nós mesmos fazendo os texto derivar de acordo com nossos caprichos, encontrando aquilo que o autor jamais imaginara ter posto ali”. 

Ler é, em si, um diálogo infinito e nunca se encerra no livro. 

Penso nos livros também como sementes, prontas para germinar em ideias, sentimentos e ações. Talvez seja isso o que dá sentido à leitura: não apenas consumir palavras, mas transformá-las em algo vivo dentro de nós.

Refletindo sobre isso, organizo minha estante de livros que se transformou num pequeno pandemônio. Separo alguns livros para doar. Um livro chega até nós num momento específico, ressoa em nossas experiências, tem algo a oferecer. Cumprido o seu papel pode partir para fertilizar, nutrir e inquietar outras mentes.  

Alguns ficam conosco por muito tempo.  

Me distraio e percorro com os olhos o contorno das lombadas. Observo os títulos como se fossem mapas de universos distintos. Demoro mais em alguns: “Uma fuga perfeita é sem volta” (Tiburi), “A melodia das coisas” (Rilke), “O espírito da prosa” (Tezza). Lembro dos dias em que foram lidos e das inquietações que tornaram aquelas páginas tão importantes pra mim. 

Enquanto a arrumação segue, percebo que os livros são mais que objetos. São ecos de quem fomos, somos e de quem ainda podemos vir a ser. Talvez, no fundo, o que fazemos com eles é sempre o mesmo: tentamos dar sentido e contorno àquilo q transborda em nós de modo que a paisagem interior - nossa dimensão subjetiva - se transforme numa espécie de estação mágica capaz de iluminar caminhos vida afora. 

Ler para esse fim já é um bom começo, Martha?



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