quinta-feira, 6 de agosto de 2026

Sem alarde

Entre as inúmeras estranhezas do mundo, há esta: Às vezes a cidade acorda sem querer impressionar ninguém. Como se estivesse fazendo um manifesto - contra a glamourização da alta performance, em favor,  talvez,  da atenção. 

O ônibus passa no horário de sempre. O cachorro atravessa a rua no mesmo ponto. Uma mulher na padaria organiza os pães no balcão como se cada um tivesse o lugar exato. Uma senhora varre a calçada em movimentos lentos, como se não tivesse pressa em terminar. Um homem rega uma planta na sacada do terceiro andar, como se aquilo fosse suficiente para justificar a manhã.

Talvez seja. 

Há momentos em que passamos o  dia esperando que algo finalmente aconteça. Enquanto isso, uma folha gira alguns segundos antes de tocar o chão. O reflexo de uma janela transforma um prédio comum numa aquarela. O silêncio de alguém lendo num café ocupa o espaço sem pedir licença. 

Nada disso anuncia que algo extraordinário esteja se desenhando. No entanto, há uma sensação de que o mundo continua escrevendo uma história sem precisar levantar a voz. 

O cheiro do pão assando traz à tona uma memória gostosa. O gato olhando a rua pela janela recebe um aceno. Uma camisa esquecida no varal dançando ao vento faz a menina sorrir. O som de um skate descendo a rua interrompe uma conversa. O olhar de um adolescente sentado à janela de um ônibus desperta a curiosidade de alguém. 

Uma pessoa passa, pedalando devagar sua bicicleta, como se não estivesse atrasada para lugar nenhum. 

Há dias em que a cidade não faz alarde e, ainda assim, há tanto para ver. Tanto para viver.

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