Eu tinha cinco anos quando observei pela primeira vez a poeira suspensa no ar.
Minha mae trocava os lençóis da cama que ficava sob uma janela. A luz entrava em feixes e eu, deitada, acompanhava as pequenas partículas que apareciam e desapareciam dentro deles.
Perguntei o que era.
Anjinhos, minha mae respondeu.
Anos depois contei a ela essa história que se tornou uma das primeiras explicações do mundo pra mim.
Ela nao lembrava.
Essa cena, que tambem compunha a biografia dela, ficou guardada só comigo.
Outro dia reencontrei uma amiga que nao via ha anos. Em algum momento da conversa ela trouxe à tona uma lembrança que ja havia se apagado. Um hábito que eu tinha, uma expressão que costumava repetir, uma coisa pequena o bastante para ter desaparecido de mim e ainda assim permaneceu com ela.
Isso me faz pensar que parte da nossa biografia nao está conosco. Está espalhada com as pessoas que nos conheceram.
Histórias de vida que se atravessam, se afastam, voltam a se tocar e ja nao da mais pra saber exatamente onde termina uma e começa outra. Ha uma especie de troca de arquivos.
Talvez seja por isso que reencontrar alguem depois de muito tempo seja um pouco perigoso. A pessoa pode devolver coisas que não lembramos ter sido, partes nossas já deletadas ou que simplesmente não chegaram a ser armazenadas num depósito de lembranças e aquela outra versão, soa apenas muito estranha.
As vezes o que alguem nos devolve nao parece sequer uma lembrança. Parece outra pessoa. Uma versao antiga de nós mesmas.
m show, vi uma imagem de Lady Gaga jogando xadrez contra uma antiga versao de si mesma e fiquei pensando:
Se pudéssemos sentar diante de quem fomos, jogariamos com ela ou contra ela?
Nossas versões anteriores nao sao necessariamente versões das quais evoluímos ordenadamente.Algumas ainda provocam, seduzem, constrangem, contradizem. E as vezes basta alguem lembrar de alguma coisa para colocar uma delas de novo diante de nos.
No fim a vida parece ser, entre tantas coisas, um sistema de armazenamento improvisado onde andamos por aí com pedaços dos outros, memorias alheias, enquanto os outros tb levam consigo partes de nós.
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