Acordei com uma música tocando ao longe, baixinho. Dessas que quando a gente ouve parecem anunciar algo de bom. No caso, eram as férias de verão do início dos anos 90.
Da cama, notei a porta do quarto entreaberta, por onde entrava a luz da cozinha e alguns ruídos. Minha mãe já estava de pé havia algum tempo ocupada com os últimos preparativos da viagem. Talvez conferindo documentos, fechando bolsas e pensando se havia roupa de frio na mala caso esfriasse. Já eu tinha preocupações mais importantes: iríamos para a praia.
Pulei da cama. Tomei café, escovei os dentes, penteei o cabelo e cumpri todas as etapas necessárias para ingressar naquela minha nova existência provisória e seguimos até a rodoviária.
Lá, o ônibus objetivamente era um ônibus. Mas ninguém sabia, exceto eu, que aquele era um ônibus-mágico: algum tempo de viagem depois abriria as portas e nos devolveria a um lugar com dias inteiros de sol, banhos de mar e aquele cheiro de sol na pele de quem passou a tarde na praia.
Nao tínhamos casa no litoral. Mas minha mãe era amiga de famílias que tinham e naquele ano, calhou de uma delas nos emprestar alguns dias de verão.
Ja na praia, para ter amigos, nada era necessário alem de ir à praia, se apresentar ao dia - e aos amigos novíssimos à beira mar. Dias de diversão garantidos.
Naqueles dias tudo era provisório: a casa, os vizinhos, os amigos, aquela pequena vida que inventávamos e, ainda assim, vivíamos como se os dias fossem permanentes.
À noitinha, lembro das caminhadas pelo bairro e pela orla, de mãos dadas com minha mãe. Em algum desses verões, tínhamos um conjunto igual de shorts e camiseta amarelo claro com pequenas flores cor-de-rosa. A ideia de sairmos por aí vestidas do mesmo jeito não foi minha, mas eu estava adorando.
Naquele tempo, eu não pensava em quem fechava as malas, conferia os documentos, conseguia a casa, planejava os detalhes para que tudo desse certo. Para mim, o verão simplesmente acontecia.
Por algum tempo, pensava que o ônibus fosse mágico. Hoje sei que quando embarcávamos, a magia ja estava feita.
Havia começado dias e horas antes, enquanto eu ainda estava na cama, ouvindo uma música tocar baixinho.