Há dias que não prometem nada de extraordinário. Uma lista de tarefas esperando sobre a mesa da cozinha; mais um dia de atendimentos e protocolos a serem executados no trabalho. Rotina.
Durante muito tempo vivi os dias comuns como se fossem uma sala de espera para acontecimentos que eu julgava serem mais importantes. Como se a beleza estivesse reservada somente às conquistas, viagens ou domingos ensolarados. Mas a maior parte da vida não acontece nesses intervalos. Ela acontece numa terça-feira qualquer.
Foi numa dessas terças-feiras que demorei mais tempo escolhendo o casaco do que pensando no dia que me esperava ou antecipando os compromissos da agenda.
Parecia um gesto sem importância. No entanto, talvez a maior parte da nossa existência seja feita justamente dessas pequenas decisões que não mudam o mundo, mas mudam a forma como o atravessamos.
Existe um tipo de beleza que não depende de férias, viagens ou grandes acontecimentos. Ela aparece também quando escolhemos uma roupa de que gostamos de vestir, ouvimos nossas músicas favoritas, passamos um café ou simplesmente caminhamos pela cidade prestando atenção à estação da vez, por exemplo.
Michel de Certeau, em A Invenção do Cotidiano, sugere que a vida comum está longe de ser apenas repetição. Mesmo quando quase tudo parece previamente determinado, ainda inventamos pequenas maneiras de habitar o nosso tempo - que é a vida em si. Há uma liberdade discreta na forma como caminhamos, olhamos e escolhemos viver aquilo que parecia apenas rotina.
Lembro dessa beleza também ao ler a crônica “Bonitas Mesmo” de Martha Medeiros: uma beleza que não espera a ocasião perfeita para existir. Ela mora nos dias úteis, nas pequenas pausas, nos rituais sem importância aparente. Não transforma a realidade, mas muda a experiência de quem a atravessa.
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