sábado, 11 de julho de 2026

As cidades dentro de nós

 “A imaginação não é uma fuga da realidade, mas  uma das formas de experimentá-la”. 

Nunca morei em Paris ou numa dessas cidades cinematográficas onde a beleza é quase banalizada, mas nao deixa de ser distribuída com generosidade entre livrarias, praças, floriculturas, museus famosos, belas vitrines, fachadas centenárias e bem cuidadas. 

Ha, porém, paisagens que chegam a nós antes mesmo da experiência. Através dos livros, filmes, fotografias, músicas ou até pelos sonhos. Quando percebemos elas já encontraram um lugar para morar dentro da gente. 

Pode ser por isso, que ao entrar numa cafeteria simples da minha cidade, sinto algo familiar. Não porque seja exatamente o que imaginei, mas porque nela encontro o mesmo espírito: uma mesa junto a janela, onde a xícara com cafe quente de alguem fumega e na bolsa entreaberta que repousa sobre a cadeira vazia, se vê um livro. Que história contaria? 

Uma cena clássica. 

A vida adulta ensina que nem todos os destinos estão ao nosso alcance, mas a imaginação continua distribuindo passaportes. E talvez sua maior gentileza seja essa: permitir que a gente esteja por alguns instantes em lugares onde nunca viveu - até descobrir que se trouxe um pedaço dessa paisagem para dentro da própria casa. 

Gosto de pensar que todos podemos ter  nossas cidades invisíveis. Lugares onde nunca moramos, mas que, mesmo de longe, ensinam o olhar. Entre paisagens inúmeras, um café visto num filme, uma livraria descrita num romance ou uma rua imaginada numa leitura. Quando finalmente encontramos algo parecido na vida real, quase nao sentimos estranhamento. Sentimos reconhecimento. É como retornar a uma cidade que só existe dentro de si.

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