Nem toda incapacidade de reconhecer a beleza ao redor é uma fraqueza individual.
Alguns lugares são de fato mais áridos que outros; ruas que convidam o olhar e ruas que fazem seguir adiante com pressa.
Algumas ruas são arborizadas onde se passa por charmosos cafés, quem sabe uma floricultura também. Nelas talvez possamos ver um livro numa vitrine convidativa ou uma praça agradável em que se pode descansar por alguns minutos.
Já em outras há fachadas sem cuidado, trânsito, outdoors intrusivos, fiação aparente. Caminhar por uma ou outra rua não produz a mesma experiência.
Uma vez que nossas emoções se desenvolvem nas nossas experiências, deve-se a elas alguma importância. Um certo cuidado.
Isso dito, convém também lembrar que é verdade que algumas sensibilidades para o belo florescem com mais facilidade quando encontram terreno fértil. Há pessoas que crescem cercadas por pequenas permissões para imaginar a vida de determinado modo. Nisso, o lugar onde estão costuma pesar.
Me sinto perdida entre minhas paisagens internas quando finalmente lembro do livro “Cidades Invisíveis”, de Italo Calvino.
Na obra, Marco Polo descreve cidades fantásticas ao imperador Kublai Khan. Aos poucos, porém, surge a suspeita de que fala sempre da mesma cidade observada por ângulos diferentes, como se cada lugar carregasse menos uma geografia fixa e mais uma maneira particular de olhar.
Embora existam diferenças concretas entre os lugares que habitamos, também existe uma cidade interior que nos acompanha. Uma cidade feita de memórias, desejos, ausências, livros lidos, músicas e possibilidades imaginadas.
Pessoas não são atravessadas pelas mesmas paisagens, o que é belo e trágico ao mesmo tempo. Ainda assim, existe uma parte da paisagem que cada um constrói dentro de si. E talvez a beleza surja justamente desse cruzamento entre o mundo que encontramos e aquele que aprendemos a sonhar.
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