Cheguei ao fim de Pura Cor com a sensação de que o livro tinha escondido um segredo desde a primeira página. Mas não me senti enganada. Ao contrário: a revelação fez tudo o que veio antes encontrar o seu lugar.
Sheila Heti constrói, nessa obra, um mundo em que árvores, folhas, pessoas e animais pertencem à mesma trama de significados. Em vez de oferecer respostas prontas, convida o leitor a experimentar uma outra maneira de olhar.
Isso cria um efeito delicado: o livro parece lembrar que as histórias não existem apenas para explicar o mundo, mas para nos ajudar a atravessá-lo.
Há a tentativa de cuidar do outro, como tema recorrente. Sheila mostra que contar uma história é uma forma de cuidado. Ela nao resolve a morte, o luto ou a solidao mas cria um espaço onde essas coisas podem ser suportadas.
Houve um determinado momento em que senti que a narrativa havia parado de andar. A leitura desacelerou, e foi difícil continuar ali. Era o luto de Mira ocupando tudo. Só no final tive a impressão de ter compreendido essa escolha da autora.
Em nenhum momento a narrativa
parecia correr em direção a um destino; ela seguia o ritmo de alguém contando uma história em voz alta permitindo imagens, desvios, associações.
No fim, percebi que esse modo de narrar também faz parte daquilo que o livro quer comunicar: algumas experiências não cabem em explicações racionais.
Mais do que contar uma história, ele transmite uma forma de olhar para a vida, o amor e a morte.
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