domingo, 28 de dezembro de 2014

Paredes Coloridas

Notas de Inhotim* 
Por Grazielle Monica Pansard 

As paredes eram muito concretas
Feitas de certezas secas
Diluí as certezas na água
A parede ficou molhada. 



*Localizado em Brumadinho/MG, o Instituto Inhotim é o maior centro de arte contemporânea ao ar livre da América Latina. Altamente recomendável aos amantes das artes e da natureza. 


Fotografia: GraziMonica 

quinta-feira, 27 de novembro de 2014

Poemas Soltos, por Grazielle

 • S a u d a d e
A saudade morreu de morte-morrida. Assim mesmo, morrida. Sem ter sido matada. Fosse de morte matada, pelo menos teria vivido. Velavam-na no centro da sala.


• O tempo e o vento  
"O encontro consigo mesmo perpassa o doloroso caminho do desencontro com o outro!" Disse-me aquele pé-de-vento e foi fazer redemoinho em outro lugar

• S i l ê n c i o s 
O hiato era sozinho e o silêncio estava sem som
Fizeram amor
O hiato seguiu só e o silêncio encontrou um tom.

* * *
Cabelos ao vento
Estrada,
Morada.

* * *
(In) Vento
(In) Tento
Flutuar
Relento. 

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Os pés e o riacho

Era só a parte rasa do que parecia ser um arroio. Num golpe de faca, afastou a folhagem que escondia aquele pedaço de água corrente: Sim, um riacho. Que sede! Que sorte! 
Desassossegado, como era da sua natureza ser, o riacho convidava a entrar e a molhar os pés que por sua vez, queriam descansar e se envolver naquelas águas falantes.
Os pés, já um pouco cansados, sabiam da sua função: caminhar ao lado do riacho até que este se fizesse rio. Talvez caminhariam por toda a vida, os pés, ao lado do riacho. Somente. Sem chegar ao grande rio. Os pés se acovardavam diante dessa hipótese. Se acovardavam também porque temiam que suas solas não fossem tão resistentes ao ponto de suportar tal caminhada. Que covardes! Os pés sentiam muito medo, de muita coisa. 
Sentiam tanto medo que às vezes mal podiam desfrutar do prazer de caminhar ao lado de um riacho. Mas o riacho, que tinha uma sabedoria própria, disse aos pés que caminhar é da natureza de ser pé. E que é da natureza do riacho querer se fazer rio e que os rios correm soltos, impetuosos, assim como os  riachos. Disse também que onde há água, há vida. O riacho era muito sabido e sentenciou: “O homem não tem o poder de fazer parar o rio e nem o riacho. Ele corre, porque precisa correr. Ele abre caminhos, o rio. Assim como o riacho e os pés que caminham. Apenas os céus, eles sim, com suas estrelas, luas e sóis, tem o poder de fazer o rio parar de correr. Quando os céus decidem o rio seca. Fica quieto e franzino no seu leito. E aí, o rio que já não é mais rio, porque não é mais vivo, molhado e falante, nem abre caminhos,  deixa de correr sobre a terra, para se unir a ela”. Os pés então se aquietaram e puderam, finalmente, caminhar.

Grazielle
07 de outubro de 2014


O Andarilho


Enquanto caminhava por aquela estrada, o andarilho percebeu que podia ser outro. Era o amor. Des-cobriu bem ali, na linha do horizonte. Se o amor que o movia na direção de um ser-outro vinha ou era da estrada, da linha do horizonte ou de si mesmo, não sabia. Não importava também. Importava que podia ser outro! Ou, simplesmente, Ser. E se era outro, talvez outros ainda nele habitassem e assim podia ser hora um, hora outro e então seriam muitos! Isso o fortalecia. Não haveria isso de ser um só; Isso de ser só, pensava o andarilho. No entanto, na mesma estrada, esse outro que ao mesmo tempo em que já era, não conseguia ser. D e s f a l e c e u. Interrompido em si mesmo,  cansado, absorto e insone, tonto e sem sentido feito um inseto em torno de uma nesga de luz, o andarilho-caído amanhecia pesado de uma noite em que a chuva não conseguiu aplacar a aridez do solo que configurava aquela estrada. A água que escorria pelas fissuras do chão rachado daquela estrada a atingia sem no entanto penetrá-las para então nutrir a sequidão. Talvez se chovesse mais.  E mais forte. Talvez se a chuva fosse outra. Ou se o barulho da água fosse mais alto e mais forte ao ponto de atravessar e calar a voz ensurdecedora daquele silêncio escuro. Daquele silêncio que era só. Era só porque nele não havia estrada, linha do horizonte, nem amor, nem andarilho,  nem outros e porque era escuro. Antes a linha do horizonte; Agora, escuridão vazia. No olhar do andarilho, caído e iluminado pela nesga de luz que atraía o inseto que insistia, naquele olhar, o reflexo da água que escorria por entre as fissuras do chão seco. 
Era só uma forma-falida, ele então soube. E ali, mais uma vez, morreu.

Grazielle
19 de outubro de 2014

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

A Psicoterapia

A psicoterapia visa ser um processo que proporciona à pessoa uma compreensão ampliada acerca das suas formas de se relacionar e de estar no mundo. Somente quando passamos a compreender como funciona uma estrutura é que é possível mudá-la.  As causas e os porquês, ficam em segundo plano diante do “como”. 

Tal compreensão dessa “estrutura” que somos nós, não diz respeito unicamente a um entendimento intelectual ou verbalizado.  Antes, tem a ver com algo mais primitivo, que perpassa os caminhos da experiência em si, do que com as elaborações cognitivas feitas a respeito dela. Entendemos que a partir deste “saber sentido”, “saber vivido”, é que se pode criar algo novo - uma nova experiência de sentidos, e é isso que buscamos construir no processo terapêutico: Ressignificações. 

A Gestalt-Terapia, também dita como “fenomenologia aplicada” tem suas raízes na filosofia fenomenológica. Para nós a descrição dos fatos vem antes da interpretação. Isto quer dizer que, a partir de uma atenção treinada, o Gestalt-terapeuta descreve o que ele vê e escuta da pessoa que o consulta, sem juízo de valor, sem interpretações. A interpretação é uma maneira de dar sentido às experiências e entendemos que a única pessoa que pode dar sentido à sua experiência é ela mesma, portanto a pessoa que está diante do terapeuta. 

Outro aspecto importante da psicoterapia gestáltica é a concepção de homem como um ser social, que se constrói a todo tempo a partir das suas relações e das suas circunstâncias, isto é, a partir do seu campo relacional. Como disse Merleau-Ponty (2011), filósofo e fenomenólogo francês: “A verdade não habita apenas o homem interior, ou antes, não existe homem interior, o homem está no mundo e é no mundo que ele se conhece”

Portanto, sob a luz dos pensamentos de Merleau-Ponty, podemos dizer que os  sentimentos, emoções e comportamentos de uma pessoa não dizem respeito unicamente a ela e sim, estão intrinsecamente enrendados ao campo relacional no qual ela está inserida. Ora, não somos exatamente os mesmos em todos os ambientes e com todas as pessoas. Há uma implicação mútua entre o homem-relação-contexto. Logo, se a todo tempo estamos nos modificando (o que é um sinal de vitalidade, pois vida é movimento; só permanece imóvel o que está morto) estamos num constante processo de  "vir-a-ser". 

Na psicoterapia gestáltica não trabalhamos com metas a serem cumpridas ou com plano terapêutico pré-estruturado (como tratar objetivamente de processos que são subjetivos?), pois acreditamos nas potencialidades da pessoa para poder escolher qual caminho seguir, quando e de que forma. Nós a acompanhamos e através de técnicas específicas, pontuamos sua caminhada.  Já o processo de compreensão diagnóstica se dá a partir da descrição da singularidade existencial da pessoa no momento presente. 

Enfim,  acerca da psicoterapia, podemos dizer que um dos seus principais objetivos é tornar a vida mais fluida, com menos formas disfuncionais e cristalizadas de se relacionar e quiçá, tornar a vida mais leve e feliz.

Desvios

Sobre nossos (des)Caminhos e Desvios
Por GraziMonica Pansard. 

Os caminhos e os descaminhos pelos quais percorremos nos habitam: somos feitos deles. Cada estrada traz consigo uma paisagem única: flores, pedras, trajetos mais íngremes que exigem esforço maior, sombra para um descanso, riachos de águas turvas e hora de águas  suaves, fluídas. Acontece que, distraídos, facilmente nos acostumamos com caminhos habituais, com determinadas formas de caminhar e de olhar a paisagem em volta. Perdemos o contato com a estrada em si e ficamos presos ao que pensamos saber a respeito dela. Desatualizados em relação a nós mesmos e ao nosso entorno, nossas sensações e emoções ficam em segundo, ou terceiro plano para dar lugar a algo que outrora tinha função ou fazia sentido, mas que já não cabe no espaço-tempo atual. Perdidos de nós mesmos, ficamos pesados e achamos a caminhada desinteressante. 
No entanto, nossas possibilidades internas são tantas quanto pudermos permitir. Por vezes é interessante que façamos um desvio das rotas tradicionais, daqueles trajetos que nos levam sempre aos mesmos lugares para que em nosso horizonte possamos vislumbrar o inesperado: A novidade e com ela a possibilidade de ampliação dos nossos caminhos internos e da nossa forma de caminhar. 

A palavra “Desvio” para nomear este blog não foi escolhida ao acaso. Na abordagem gestáltica, que é a abordagem na qual pauto minha atuação enquanto psicóloga clínica, provocar/autorizar/fazer o desvio na relação terapêutica  é, nas palavras de Muller-Granzotto (2012), “encontrar e acolher, no discurso e na ação dos nossos interlocutores, o estranho ou inesperado que possam produzir" .
Acolher aquilo que em nós é estranho ou que de alguma forma não se encaixa naquilo que consideraríamos, num primeiro momento, ser "um caminho adequado" ou "aceitável", é de fato sair do lugar conhecido - aquele em que nos (re)conhecíamos - e pegar um desvio que ao certo não sabemos aonde pode nos levar. 
No entanto, a despeito dos riscos que o desconhecido pode motivar, ao fazer o desvio, provocamos uma mudança: O que estava acomodado sofre um deslocamento e é nesse movimento que precisamos CRIAR. Nesse ponto estamos diante de algo novo; Novidade que não encontraríamos nas nossas formas habituais. A ampliação do nosso ser vem como consequência: Ampliamos nosso olhar e percepção sobre nossas próprias vulnerabilidades, bem como sobre nossas possibilidades existenciais.

Artigo publicado no Jornal em Cont@to de Gestalt-Terapia. 

Referências

MÜLLER-GRANZOTTO, Marcos J.; MÜLLER-GRANZOTTO, Rosane L. Clínicas Gestálticas: Sentido ético, político e antropológico da teoria do self. São Paulo: Summus, 2012. 


Fotografia por Grazielle Monica

Luz e Sombra

Possibilidades de integração entre forças que em princípio se opõem. Mas se podem repousar, tranquilas - ou não, uma sobre a outra e experimentar trocas de lugares, podem também dar forma a diversos cenários. 

Fotografia: Grazielle Monica 

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