quinta-feira, 30 de março de 2017

O luto que resiste: A terapêutica clínica e Saúde Existencial

FOTO: VejaBrasília 
Imagem da exposição "Modelo para Sobrevivência" de Julia Catstagno (Uruguai)

No primeiro fim de semana de outono, último 25 de março deste ano, estivemos em Curitiba com o propósito de participar de um MiniCurso cuja temática frequentemente considerada obscura e pesada, contrastou com a leveza daquele sábado marcado pelo clima típico da estação: Natureza viva se exibindo na cor do céu, no vento, nas folhas secas caídas às margens do chão e que enfeitaram nosso caminho até o “Encontro da Amazônia”, local onde aconteceu o evento. Terra de personalidades como João Turín, Dalton Trevisan, Paulo Leminski e casa de José Castello, Curitiba é, certamente, um lugar que aprendemos a amar, por isso vive sempre nas nossas lembranças (mesmo que estejamos longe).
“A morte é sempre um susto. Uma quebra”.
“Nossa sociedade está preparada para acolher o luto daqueles que perdem um ente querido?”
“De que modos são tratados os enlutados em nossa sociedade?”
À luz destas questões e sob a condução da Professora e Psicóloga Dra. Joanneliese de Lucas Freitas, atualmente docente na UFPR e organizadora do livro lançado em 2015 “Mães em Luto: A dor e suas repercussões existenciais e psicanalíticas” (Juruá Editora) fomos convidados a pensar e dialogar em torno de um dos eixos comuns à vida de todos nós: A morte e o processo de luto envolvido neste acontecimento. Trabalho árduo, sem dúvida, para todos os presentes no encontro: Psicólogos, especialistas no assunto, acadêmicos e médicos. “A não ser que morramos primeiro, todos, em algum momento das nossas vidas vamos passar por um processo de luto”, lembrou-nos Dra. Joanneliese (ou apenas “Jô” como se autodenominava), introduzindo a inquietação necessária para que nos desacomodássemos de nossos lugares de “inatingíveis” e “imortais”.
Inatingíveis é tudo o que não somos enquanto Psicólogos, Psicoterapeutas, Analistas ou qualquer denominação que se dê o profissional que se propõe a fazer do seu pensamento, palavras, silêncios, diálogo, corpo de conhecimento, instrumento de trabalho em favor do outro – Aquele que o busca.
Estar diante de alguém que sofre a dor da perda, nunca é trabalho fácil, nem tampouco se vale para sustentar a ideia romantizada deste ofício que permeia a fantasia de muitos profissionais ainda em fase de formação, do tipo “quero poder ajudar”.
Não raro, diante do adoecimento e da morte, também padecem profissionais que atuam neste contexto. Deixam-se atingir, ainda que pelejem arduamente contra sua própria sensibilidade (capacidade de pensar), isto que os faz humanos. Também requerem cuidados.
Quem já passou pela experiência sabe que diante da dor da perda, somos de verdade, impotentes. Por mais que estejamos munidos de informações, de formações e vivências a dor desencadeada por uma experiência de luto/morte é sempre singular e única, não passível de técnicas de manuseio e que deixa a todos nós “órfãos”. A dor não se deixa domar, é selvagem e pede lugar. Muitas vezes, quando não ouvida, paralisa quem a traz no corpo.
Diante dessa constatação, o que nos resta fazer?
No final do ano de 2014, estive na capital de Minas Gerais, em Belo Horizonte, onde visitei no CCBB (Centro Cultural do Banco do Brasil) uma exposição curiosa. Integrando a Mostra Coletiva “Ciclo: Criar com o que temos”, que tem circulado também em outros estados do Brasil, a obra “Modelo para sobrevivência” da artista uruguaia Julia Catstagno (1977) chamou especialmente minha atenção. Ao entrar numa sala escura iluminada apenas com tímidos feixes de luz, deparei-me com uma obra monumental de forma indefinida e sem qualquer significado à priori. Senti-me ligeiramente desconfortável, dando lugar, portanto, ao desconhecido. Elaborada e construída sob a fragilidade de finos palitos de dente onde um servia de apoio e suporte ao outro, unidos por uma tênue camada de cola a obra formava um todo sustentado a partir da integração das suas partes. Simples e ao mesmo tempo complexa, a obra “Modelo para Sobrevivência” nos remete à força que existe no coletivo e no suporte que podemos encontrar no outro.
Volto ao Minicurso sobre “A clínica do Luto” ministrado pela professora Joanneliese e com quem fomos aprender.
Diferente de ideias difundidas por aí, sofrimento não nos deixa melhores. Precisamos aprender a lidar com ele. Acolher, dar-lhe voz, é um bom começo num processo de cura.
“Nossa sociedade não é acolhedora” desabafou alguém a certa altura da aula. Bastante compreensível se olharmos para nosso retrato social, onde quem não produz compulsivamente e o tempo inteiro não é feliz (ou pelo menos pareça) é de um modo ou de outro excluído, a experiência do luto pode ensejar no sujeito que a vivencia, muita solidão, isto é, impossibilidade de compartilhar algo.  
Voltei de Curitiba com a mesma sensação de impotência com que fui, diante deste tema aterrador. Se valeu a viagem? Sem dúvida. Afinal de contas, pudemos falar, estar juntos, nos ouvir. Através do conhecimento e da presença de cada um que esteve lá, fomos e tivemos suporte, ainda que a realidade da nossa mortalidade, em nenhum momento, nos abandonasse. Pudemos, de verdade, compartilhar desse tema que é tão difícil falar. 

Por Grazielle Monica G.Pansard

sábado, 16 de julho de 2016

Procelária de Sophia

Procelária de Sophia

Vai acabar tudo em mim
nada vai continuar.
Por isso bebo da vida
em goles, 
muito muito devagar.
Quero saber o gosto,
quero sentir tudo o que há.
No final estarei embriagada
e para além de mim
uma música em silêncio
continuará a ressoar.
Neste momento em paz
à música do silencio
e t e r n o
com fé e pra sempre
vou me entregar.
Eis aqui o ponto
este infinito particular.

GmG, em 16/07/2016, Intervalos. 

quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

Carta aos assustados

Sobre nossos medos; Os infantis e os medos adultos. 


* * *
- O que te assusta? Perguntou a menina de olhos auspiciosos. 
- O fantasma de Anne Frank, respondi.
PARTE I. O LADO A DO MEDO.
Lembro, especialmente, de dois medos que me assombravam na infância:
Medo A) Tratores.
Medo B) “O Fortuna” – A música.
Explico.
Medo A) Tratores. Idade precisa: período pré-operatório, de acordo com as confabulações de Sir Jean Piaget.
Tratores eram seres sem explicação. Assustavam e ponto. O terror me subia pelas pernas e seguia até o último fio de cabelo branco fino e esvoaçante, como denunciam as fotos do álbum de família, sempre que via um deles se aproximar. Se era o tamanho monstruoso (sim, eu me impressionava com coisas pequenas o que fazia meu mundo ser bem interessante), formas grotescas ou o som estrepitoso, não sei. Será para mim um eterno mistério. Fato, era que tratores me faziam esbugalhar os olhos e sempre que um pintava à minha frente ou na linha do horizonte, eu não sabia se corria, se chorava ou se ficava.


Foto: Dossi | Pixabay

Na dúvida, fazia o que de melhor podia fazer: Nada. É. Nada. Assim, esperava o trator passar e com ele o medo, que eu via ir embora de carona naquela máquina assustadora.
Desde bem cedo descobri a potência que existe no fazer nada - essa coisa vazia, e de sustentar isso em algumas situações para então, talvez, poder fazer alguma coisa. 

“O vazio é o meio de transporte pra quem tem coração cheio”, canta Paulinho Moska. 

As crianças sabem. Muita coisa.
Na infância o universo conspira descobrimentos. Por isso imagino que a esta mesma época em que eu me iniciara neste fazer – o da paciência, em outras palavras, Manoel de Barros investia na criação de teorias que mais tarde, em 1996, viriam a compor seu pequeno grande “Livro sobre Nada”. O universo tem tramas. Vazios, nadas… nós, paciências.
Voltando a encruzilhada das dúvidas: “não decidir é uma grande decisão”, aviso aos navegantes! Fabrício Carpinejar, Para onde vai o amor? Crônicas de Fossa (Bertrand Brasil, 2015).
Fabrício, amor não se escreve, se vive.
Amor escreve sim! Letra e palavra são amantes.
A vida, esse passado-presente-futuro, é história.
E nossa história mora onde? Livros são como casas. São nossas histórias contadas por outros.
É verdade que quando eu não estava sozinha (provavelmente na maioria das vezes já que tive a sorte de ser uma criança bem acompanhada), era bem mais fácil enfrentar o trator. Por exemplo, tudo ficava mais fácil quando, enquanto esperava aquele maquinário monstruoso passar, minha mãe segurava minha mão e lá de cima, do alto dos seus 1 metro e 60 centímetros de altura, ela lançava o seu olhar acompanhado de um sorriso leve e que eu sabia ler. No sorriso e no olhar leve de minha mãe estava escrito: Confiança.
PARTE II. O LADO B DO MEDO.
Medo B) “O Fortuna” – A música. Idade precisa: Operações concretas, Jean Piaget.
Aqui, a história começa numa piscina. Uma piscina única que habitava a única escola pública com piscina da cidade do FITUB! Um luxo! Pelo menos era isso que eu ouvia os adultos falando, que aquela era a única escola pública da cidade que oferecia piscina e aula de natação às crianças e aquilo parecia motivo de muito orgulho. Era mesmo. Quiçá todas as escolas públicas pudessem oferecer tais oportunidades. Enquanto país da educação precisamos aprender a caminhar segundo a nossa missão. 
Voltando ao orgulho dos adultos, porque eu via-os discursando sobre aquela, a nossa, ser a única escola pública do município com piscina eu também saía por aí repetindo o discurso e como todos, me orgulhava dele.
Fui aluna de natação da Escola Básica Municipal Alberto Stein e a nadar aprendi brincando, como é recomendável que sejam os aprendizados infantis: uma brincadeira. Nadar não era coisa séria pra mim e coisa que criança que é criança sabe fazer bem, sem dúvida nenhuma, é brincar. Chato é aquele momento em que alguém, quase sempre um adulto, avisa que está na hora da brincadeira terminar. 

No mundo dos adultos quase tudo tem hora para acontecer. 
A vida tem seus tempos, seus ciclos. É assim que funciona. A vida tem seus momentos.
Nesse caso, quem me pediu para a brincadeira acabar e virar coisa séria foi minha então professora de natação, que viria a se tornar minha treinadora e por quem guardo carinhosas lembranças. Assim como minha mãe, também ela me inspirou confiança convidando-me a integrar a equipe oficial de natação da escola. Se eu aceitasse seria uma das representantes da escola nos jogos estudantis da cidade e região. Odiei a ideia. A brincadeira sofreria monstruosas mutações e seria coisa séria o que sem dúvida, para uma criança que só queria brincar, ficaria muito, mas muito chato. A resposta ao convite foi enfática, levemente tímida: “acho que não”. Mais duas, três tentativas da profe, em dias alternados, tempo para pensar e por fim, cedi.
Antes, duas vezes por semana brincar de nadar na água; Depois, todos os dias da semana treino. Antes, pouco me interessavam as habilidades esportivas dos colegas que brincavam de nadar comigo (quem se importava com isso se para brincar todos tinham habilidade?); Depois, já que não era mais brincadeira, eu precisava aprender as tais habilidades e percebia, com certo desespero, que minha melhor habilidade continuava sendo a brincadeira.
Achava aquilo de treinar para competir uma verdadeira chatice. Mas não queria decepcionar a profe, muito menos a mim mesma já que havia aceitado o desafio e segui em frente. Curioso foi perceber as transformações no meu corpo provocadas pelo excesso de treino. De criança elegante, ao invés de um corpo atlético, eu passava a adquirir um“corpitxo” elegantemente roliço.
O motivo: Os treinos e a ideia que os motivava (a competição) me davam dores de barriga. Não conseguindo me alimentar adequadamente antes das aulas por causa de “problema dos nervos” (leia-se neuroses infantis, gênesis) quando ele terminava, já com o nível de energia no mindinho do pé, ia eu cambaleando até a cantina da escola para repor as energias com um pastel de banana, a famosa “bananinha”, que dava para comprar com as moedas da minha mesada (tive a chance de aprender a administrar meu próprio dinheiro ainda criança). E como era divertido me besuntar de açúcar depois dos treinos! “Meu troféu’’, falava sozinha enquanto saboreava aquela gostosura. Claro que isso não acontecia todo os dia, até porque a mesada era bem modesta. Mas em alguns sim.
Vieram as competições e o instante derradeiramente inaugural:
Ginásio do SESI, Jogos Estudantis da Primavera (1995), dia de competição e minha primeira experiência com ela: A música. Sim! Com a música!
Imagino que para tornar a coisa toda mais emocionante (quem não gosta de fortes emoções uma vez ou outra para driblar o tédio?), alguém pôs na vitrola do ginásio uma das poesias do Carmina Burana, musicada por Carl Orff (1895- 1982), “O Fortuna”. A música fluía invadindo todos os cantos empoeirados daquele ginásio enorme, ecoando aquelas notas assustadoras, a todo vapor! A essa altura eu já começava a me sentir num grande barco furado e a música, para meu desespero, só aumentava a ansiedade. Aquela música assustava muito mais que competir. Era ela a encarnação sonora de todos meus pesadelos infantis! É verdade que o medo de competir era uma mentira que eu inventara. Meu medo era na realidade, da perda. De perder, você sabe. Fracassar…
Nadadores a postos, preparação, o árbitro anuncia a largada e lá vai! Uma máquina mortífera na água! Perto dos meus adversários eu estava morta de tão cansada e bem no início da prova. De nadadora em potencial eu estava mais próxima de uma “Pequena Miss Sunshine” – o filme, das águas. Pelo menos sempre me sobrava uma medalha de bronze. E o melhor, o desafio estava superado. Eu aprendera a atravessar a nado a piscina do medo sem me afogar, além de poder ouvir a música dos meus pesadelos infantis (esses sempre são os mais assustadores) sem paralisar.
Hoje quando ouço “O Fortuna”, cuja interpretação feita pelos caras do The Piano Guys é emocionante, percebo nela uma música simplesmente divina, um som dos deuses! Também acho interessante a versão do astro pop da música clássica, André Rieu. Já a de Carl Orff – o criador da obra, é indiscutível. Todas as versões estão disponíveis no youtube. E por fim, não posso deixar de observar: Ela ainda me assusta e sempre que a ouço, sinto que meus sentidos são convidados a dançar.

Grazielle Pansard, janeiro de 2016. 
Crônica Publicada na Revista Valeu! A Revista Cultural do Vale Europeu, edição Março 2016, pág. 30. Também disponível em versão online www.revistavaleu.com.br 


segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

Carta aos des-esperados

Porque é preciso “nível superior” para compreender o diálogo dos loucos, que falam com simplicidade. E nisso sou especialista (e psicóloga). 
Com amor,
Por Grazielle Monica Pansard.
Intervalos, dez. 2015


Certamente este foi um longo e intenso ano. Os poderosos deste país que o digam, “beijinho no ombro”, Xico Sá. Como profetizaram no seu início 2015: “O ano em que tudo acontece”. Bingo! Obras do amor. Movimentado, sem dúvida. Estivemos em vários lugares: do acento quente do coletivo blumenauense lotado e mal das pernas (SIGA em frente ‪#‎sóquenão‬) ao gelado pico do Volcàn Osorno. Imensidão. Universos Paralelos. Voltemos ao movimento é preciso retornar, sempre.
MO-VI-MEN-TO, o lema tema do meu ano nomeado por mim quando ainda era um bebezinho, em janeiro. Por isso foi eleito pelo jabuti o M E U ano e de mais ninguém. Possessiva? Tá de brincadeira. Nasci touro com ascendente escorpião. Planeta regente: Vênus (para nossa salvação). Por isso, possessiva não. É que minha profissão é de cuidado e para cuidar de outros é preciso saber primeiro cuidar de si - do que é seu. Logo, quando digo que 2015 foi meu, não se trata de possessividade e sim amorosidade. Pelo que é meu. Ok, possessiva. Você venceu.

Buen.
Aproveitando o ensejo, quero homenagear aqui nesta carta alguns dos “meus” grandes companheiros, que estiveram e foram presentes para mim nesta longa caminhada suada sem fim. 
Lista dos top-pop-do-momento (adoro me repetir):
ELIANE BRUM – TOP MANAGEMENT – Sem sombra de dúvida! Dio Santo. Que mulher! Mulher não. Anjo caído, como já arrisquei outro dia. Deus, esse sádico, amputou as asas - BRUM!! - desse anjo só para forçá-lo a descer e intervir aqui na Terra (inferno!) e parar de ficar voando por aí. O mais engraçado é que essa Menina Quebrada ainda se diz avoada e insiste em sobrevoar as nuvens tempestuosas que há tempos pairam sobre os palácios deste país. Que horror! Que linda... Voe Bela! E não esqueça de voltar para me ver. Descanse quando precisar. Saudades.
XICO SÁ. Quando a breguice envaidece o coração agradece, créditos a mim. Xico, guru dos corações partidos. Só não sei como ele consegue misturar política nesse caldeirão dos desalmados. Sintonia querido. 2016 nos espera.
FABRÍCIO CARPINEJAR: “A máquina”. E tenho dito.
VIEGAS FERNANDES DA COSTA. Encontrei acalento e companhia à sombra da tua tabacaria. Obrigada.
CLARICE LISPECTOR. Eterna, musa inspiradora. Meu fantasma maior.
Os demais que me desculpem por não terem sido citados. Mas saibam, para sempre serão lembrados. A Memória (que criança travessa!) é uma grande amiga minha.

;)

Foto: Unsplash | Pixabay

domingo, 20 de dezembro de 2015

Sobre fazer do corpo obra de arte

Corpo, partitura composta por notas que emitem a música essencial: V i d a *
Por Grazielle Pansard, dezembro/2015. 

[...] é preciso ter olhos de águia para ver além. Olhos rasos não permitem os mergulhos necessários para navegar as riquezas e profundezas que existem num oceano ou num rio (ainda acredito nos rios do nosso país e na sua capacidade de sobre-vida, apesar dos ataques lamacentos que vêm sofrendo por parte daqueles que precisam deles para viver: Nós mesmos). A arte expressada neste vídeo, por exemplo, fala disso. Da necessidade de termos um olhar crítico [...]

Mas não apenas isso. Ou seja, não apenas criticidade. Talvez a arte esteja antes para acolher a rigidez que nasce da crítica do que para sê-la. 

*Texto escrito a partir da leitura feita do vídeo Painted.  (Duncan McDowall. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=Pd2KM3qjcKk>

Existe na obra Painted um tema que subjaz a dança: as cenas e os movimentos. E não é preciso ser um crítico de arte para enxergar isso. Até porque estou me aventurando a falar algo sobre a arte que alguém desenvolveu com competência e não sou louca o suficiente para cometer despautérios em tempos tão côncavos. Mas é preciso ser um especialista para poder falar abertamente sobre o tema em questão (o que é o meu caso, já que sou psicóloga), porque sempre é difícil. O tema: A morte, esse ser misterioso, com aparência soturna e do qual normalmente temos medo porque anda à nossa espreita, estejamos atentos ou distraídos. 


Todos os dias vivemos algo que morre. Seja num objeto perdido, como recentemente foi o meu caso ao deparar-me com a perda, porque sou distraída, do meu querido livro “Felicidade Clandestina", Clarice Lispector (ainda estou de luto), ou de um ente querido ou seja na morte vivida quando perdemos um dia, estamos sempre diante dela, que não nos escapa. Fato: Nossos dias são passíveis de perdas e nós estamos passíveis a elas. Lidemos ou não com isso. 


Todos têm uma história de perda para contar – somos todos por elas constituídos. E exatamente por isso, podemos respeitar as diferentes formas que as pessoas encontram para lidar com este tema – porque a morte é feita de várias. Também de limites. Diversidade. 


Voltemos ao significante “perder o dia/tempo” – o que temos de mais precioso. Existem várias maneiras de perder um dia inteiro ou de perder a si mesmo num dia. Perder também é ganhar, de acordo (Marcelo Camelo, 2015). A esta altura, inclusive, suspeito que querer ganhar o dia é sempre uma triste ilusão. Se todo dia morre quando anoitece, todo dia se perde. 

TO-DO-SAN-TO-D-I-A-MOR-RE. Até parece piada. Mas não é. É esperança. 

Um jeito de fazer o dia viver (minha querida amiga Eliane Brum, foi quem deu-me a dica) é transformá-lo em história. História a ser contada. A história, essa criança-menina, que tem muita vida pela frente, quando ganha letra fica ainda mais viva. Estamos falando de algo raro: o difícil processo de re-significar os temas que para nós são os mais difíceis e tortuosos, entre eles a morte e o morrer. Perda. E é exatamente disso que falam as cenas, o corpo e os movimentos contidos na obra que estão condensados na obra Painted. É preciso ter clareza para enxergar quando há escuridão. A clareza não é inata, se desenvolve. E des-envolve. 


Concluindo (não gosto das conclusões. Primeiro porque são mentiras, segundo porque também são morte quando encerram em si outras possibilidades) se convivemos com o que nos assusta todos os dias, nossa própria possibilidade de morrer, somos em verdade muito corajosos desde o momento em que todas as manhãs vêm, silenciosamente, nos despertar. Se é que ainda temos coragem para dormir. 


No fim não falei quase nada da dança da "vida-morte-vida" (Clarissa Pinkola Estés que o diga) expressa tão lindamente no vídeo. É que não gosto de arriscar críticas. Arte para mim, tem só a função de ser. Ela mesma. Assim. Simples. Bonita. Expressiva.


sábado, 7 de novembro de 2015

Minha amizade com Lya Luft

e nossos diálogos... 


Minha amizade com Lya foi como muitas: Intensa e breve. Ela não era única... mas tinha sua singularidade. Era evidente. 

Lya me mostrou que existe um “Rio do Meio”, que engana quando parece ser fácil de atravessar e engole os desavisados; Falou-me que há um “Tigre na Sombra”; E, sob o ponto de vista dela, mostrou-me “A riqueza do mundo”. 

Depois de um tempo de convivência, apesar de dizer-se bruxa, percebi que Lya era por demais “de bem” o que, à época, não satisfazia e não se encaixava com meu lado “do mal”, esse aspecto da natureza humana que vive à nossa esquerda e que pulsa em todos. A complexidade é nota que compõe a melodia de todos os corpos, precisamos reconhecer. Ninguém é só "de bem", ninguém é só "do mal". Esse tema infinito, que somos nós, nunca é por completo dominado. Saber-se complexo é não saber-se. E o que fazemos com o que não sabemos? Ora, buscamos saber. Se com calma, com cuidado e sem julgamento prévio, melhor. 

Voltando a minha complexa amizade com Lya. 

Éramos muito diferentes, percebi. E só aí, na nossa diferença, pudemos nos (re)conhecer. O que é igual não reconhece a diferença porque pensa que o que vê diante de si é (ou deve ser) só uma continuidade de si mesmo. Como acontece com os bebês nas suas relações primeiras. Ser adulto é reconhecer diferenças. 

Por fim, minhas ideias e de Lya conflitaram: Crescemos e infelizmente nos afastamos, como acontece com os adultos quando pensam muito diferente e a convivência fica impossível. Coisas pequenas. Veja só. Coisas da vida. Nunca mais a vi. 


Hoje de manhã cedinho, enquanto passava os olhos pelos livros da minha estante em busca de um presente para uma pessoa, inesperadamente a reencontrei! E foi como naqueles reencontros surpreendentes quando, do nada, ao cruzarmos a esquina batemos de frente com o destino! Relê-la foi como aquelas surpresas boas que a vida, depois de um clima de suspense, autoriza àqueles que sabem esperar (coisa quase esquecida nos tempos atuais).

Considero importante, aqui, lembrar-me que saber esperar nada tem a ver com passividade, embora uma dose de passividade seja indispensável aos que se propõe a exercitar a paciência. Saber esperar é antes uma ação. 

Bom, no fim da minha busca por um presente para uma outra pessoa, a presenteada fui eu! Lya mostrou-me que apesar dos conflitos e das diferenças podemos SER presente quando relembrou-me de uma das nossas riquezas: Os nossos diálogos. 

Lya Luft e minha amizade com ela, vale ouro. 


“O que éramos então nós, criaturas inquietas e indagadoras? Éramos procura de significado e de parceria, ainda que não se resolvesse nada. A gente estava tentando”. 
(A riqueza do mundo, Lya Luft, 2011).
Grazielle Pansard, numa manhã de domingo. Novembro de 2015.  

Crônica Publicada na Revista Tie Break, edição 122. 
www.mundieditora.com.br

Fotografia: Grazielle Monica

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

Poemas soltos

A chuva que era doce
de tanto cair
ficou salgada
e aí 
Fez-se mar. 

Por Grazielle Monica, nov. 2015. 

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