sexta-feira, 26 de setembro de 2014

A Psicoterapia

A psicoterapia visa ser um processo que proporciona à pessoa uma compreensão ampliada acerca das suas formas de se relacionar e de estar no mundo. Somente quando passamos a compreender como funciona uma estrutura é que é possível mudá-la.  As causas e os porquês, ficam em segundo plano diante do “como”. 

Tal compreensão dessa “estrutura” que somos nós, não diz respeito unicamente a um entendimento intelectual ou verbalizado.  Antes, tem a ver com algo mais primitivo, que perpassa os caminhos da experiência em si, do que com as elaborações cognitivas feitas a respeito dela. Entendemos que a partir deste “saber sentido”, “saber vivido”, é que se pode criar algo novo - uma nova experiência de sentidos, e é isso que buscamos construir no processo terapêutico: Ressignificações. 

A Gestalt-Terapia, também dita como “fenomenologia aplicada” tem suas raízes na filosofia fenomenológica. Para nós a descrição dos fatos vem antes da interpretação. Isto quer dizer que, a partir de uma atenção treinada, o Gestalt-terapeuta descreve o que ele vê e escuta da pessoa que o consulta, sem juízo de valor, sem interpretações. A interpretação é uma maneira de dar sentido às experiências e entendemos que a única pessoa que pode dar sentido à sua experiência é ela mesma, portanto a pessoa que está diante do terapeuta. 

Outro aspecto importante da psicoterapia gestáltica é a concepção de homem como um ser social, que se constrói a todo tempo a partir das suas relações e das suas circunstâncias, isto é, a partir do seu campo relacional. Como disse Merleau-Ponty (2011), filósofo e fenomenólogo francês: “A verdade não habita apenas o homem interior, ou antes, não existe homem interior, o homem está no mundo e é no mundo que ele se conhece”

Portanto, sob a luz dos pensamentos de Merleau-Ponty, podemos dizer que os  sentimentos, emoções e comportamentos de uma pessoa não dizem respeito unicamente a ela e sim, estão intrinsecamente enrendados ao campo relacional no qual ela está inserida. Ora, não somos exatamente os mesmos em todos os ambientes e com todas as pessoas. Há uma implicação mútua entre o homem-relação-contexto. Logo, se a todo tempo estamos nos modificando (o que é um sinal de vitalidade, pois vida é movimento; só permanece imóvel o que está morto) estamos num constante processo de  "vir-a-ser". 

Na psicoterapia gestáltica não trabalhamos com metas a serem cumpridas ou com plano terapêutico pré-estruturado (como tratar objetivamente de processos que são subjetivos?), pois acreditamos nas potencialidades da pessoa para poder escolher qual caminho seguir, quando e de que forma. Nós a acompanhamos e através de técnicas específicas, pontuamos sua caminhada.  Já o processo de compreensão diagnóstica se dá a partir da descrição da singularidade existencial da pessoa no momento presente. 

Enfim,  acerca da psicoterapia, podemos dizer que um dos seus principais objetivos é tornar a vida mais fluida, com menos formas disfuncionais e cristalizadas de se relacionar e quiçá, tornar a vida mais leve e feliz.

Desvios

Sobre nossos (des)Caminhos e Desvios
Por GraziMonica Pansard. 

Os caminhos e os descaminhos pelos quais percorremos nos habitam: somos feitos deles. Cada estrada traz consigo uma paisagem única: flores, pedras, trajetos mais íngremes que exigem esforço maior, sombra para um descanso, riachos de águas turvas e hora de águas  suaves, fluídas. Acontece que, distraídos, facilmente nos acostumamos com caminhos habituais, com determinadas formas de caminhar e de olhar a paisagem em volta. Perdemos o contato com a estrada em si e ficamos presos ao que pensamos saber a respeito dela. Desatualizados em relação a nós mesmos e ao nosso entorno, nossas sensações e emoções ficam em segundo, ou terceiro plano para dar lugar a algo que outrora tinha função ou fazia sentido, mas que já não cabe no espaço-tempo atual. Perdidos de nós mesmos, ficamos pesados e achamos a caminhada desinteressante. 
No entanto, nossas possibilidades internas são tantas quanto pudermos permitir. Por vezes é interessante que façamos um desvio das rotas tradicionais, daqueles trajetos que nos levam sempre aos mesmos lugares para que em nosso horizonte possamos vislumbrar o inesperado: A novidade e com ela a possibilidade de ampliação dos nossos caminhos internos e da nossa forma de caminhar. 

A palavra “Desvio” para nomear este blog não foi escolhida ao acaso. Na abordagem gestáltica, que é a abordagem na qual pauto minha atuação enquanto psicóloga clínica, provocar/autorizar/fazer o desvio na relação terapêutica  é, nas palavras de Muller-Granzotto (2012), “encontrar e acolher, no discurso e na ação dos nossos interlocutores, o estranho ou inesperado que possam produzir" .
Acolher aquilo que em nós é estranho ou que de alguma forma não se encaixa naquilo que consideraríamos, num primeiro momento, ser "um caminho adequado" ou "aceitável", é de fato sair do lugar conhecido - aquele em que nos (re)conhecíamos - e pegar um desvio que ao certo não sabemos aonde pode nos levar. 
No entanto, a despeito dos riscos que o desconhecido pode motivar, ao fazer o desvio, provocamos uma mudança: O que estava acomodado sofre um deslocamento e é nesse movimento que precisamos CRIAR. Nesse ponto estamos diante de algo novo; Novidade que não encontraríamos nas nossas formas habituais. A ampliação do nosso ser vem como consequência: Ampliamos nosso olhar e percepção sobre nossas próprias vulnerabilidades, bem como sobre nossas possibilidades existenciais.

Artigo publicado no Jornal em Cont@to de Gestalt-Terapia. 

Referências

MÜLLER-GRANZOTTO, Marcos J.; MÜLLER-GRANZOTTO, Rosane L. Clínicas Gestálticas: Sentido ético, político e antropológico da teoria do self. São Paulo: Summus, 2012. 


Fotografia por Grazielle Monica

Luz e Sombra

Possibilidades de integração entre forças que em princípio se opõem. Mas se podem repousar, tranquilas - ou não, uma sobre a outra e experimentar trocas de lugares, podem também dar forma a diversos cenários. 

Fotografia: Grazielle Monica 

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