segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

Carta aos des-esperados

Porque é preciso “nível superior” para compreender o diálogo dos loucos, que falam com simplicidade. E nisso sou especialista (e psicóloga). 
Com amor,
Por Grazielle Monica Pansard.
Intervalos, dez. 2015


Certamente este foi um longo e intenso ano. Os poderosos deste país que o digam, “beijinho no ombro”, Xico Sá. Como profetizaram no seu início 2015: “O ano em que tudo acontece”. Bingo! Obras do amor. Movimentado, sem dúvida. Estivemos em vários lugares: do acento quente do coletivo blumenauense lotado e mal das pernas (SIGA em frente ‪#‎sóquenão‬) ao gelado pico do Volcàn Osorno. Imensidão. Universos Paralelos. Voltemos ao movimento é preciso retornar, sempre.
MO-VI-MEN-TO, o lema tema do meu ano nomeado por mim quando ainda era um bebezinho, em janeiro. Por isso foi eleito pelo jabuti o M E U ano e de mais ninguém. Possessiva? Tá de brincadeira. Nasci touro com ascendente escorpião. Planeta regente: Vênus (para nossa salvação). Por isso, possessiva não. É que minha profissão é de cuidado e para cuidar de outros é preciso saber primeiro cuidar de si - do que é seu. Logo, quando digo que 2015 foi meu, não se trata de possessividade e sim amorosidade. Pelo que é meu. Ok, possessiva. Você venceu.

Buen.
Aproveitando o ensejo, quero homenagear aqui nesta carta alguns dos “meus” grandes companheiros, que estiveram e foram presentes para mim nesta longa caminhada suada sem fim. 
Lista dos top-pop-do-momento (adoro me repetir):
ELIANE BRUM – TOP MANAGEMENT – Sem sombra de dúvida! Dio Santo. Que mulher! Mulher não. Anjo caído, como já arrisquei outro dia. Deus, esse sádico, amputou as asas - BRUM!! - desse anjo só para forçá-lo a descer e intervir aqui na Terra (inferno!) e parar de ficar voando por aí. O mais engraçado é que essa Menina Quebrada ainda se diz avoada e insiste em sobrevoar as nuvens tempestuosas que há tempos pairam sobre os palácios deste país. Que horror! Que linda... Voe Bela! E não esqueça de voltar para me ver. Descanse quando precisar. Saudades.
XICO SÁ. Quando a breguice envaidece o coração agradece, créditos a mim. Xico, guru dos corações partidos. Só não sei como ele consegue misturar política nesse caldeirão dos desalmados. Sintonia querido. 2016 nos espera.
FABRÍCIO CARPINEJAR: “A máquina”. E tenho dito.
VIEGAS FERNANDES DA COSTA. Encontrei acalento e companhia à sombra da tua tabacaria. Obrigada.
CLARICE LISPECTOR. Eterna, musa inspiradora. Meu fantasma maior.
Os demais que me desculpem por não terem sido citados. Mas saibam, para sempre serão lembrados. A Memória (que criança travessa!) é uma grande amiga minha.

;)

Foto: Unsplash | Pixabay

domingo, 20 de dezembro de 2015

Sobre fazer do corpo obra de arte

Corpo, partitura composta por notas que emitem a música essencial: V i d a *
Por Grazielle Pansard, dezembro/2015. 

[...] é preciso ter olhos de águia para ver além. Olhos rasos não permitem os mergulhos necessários para navegar as riquezas e profundezas que existem num oceano ou num rio (ainda acredito nos rios do nosso país e na sua capacidade de sobre-vida, apesar dos ataques lamacentos que vêm sofrendo por parte daqueles que precisam deles para viver: Nós mesmos). A arte expressada neste vídeo, por exemplo, fala disso. Da necessidade de termos um olhar crítico [...]

Mas não apenas isso. Ou seja, não apenas criticidade. Talvez a arte esteja antes para acolher a rigidez que nasce da crítica do que para sê-la. 

*Texto escrito a partir da leitura feita do vídeo Painted.  (Duncan McDowall. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=Pd2KM3qjcKk>

Existe na obra Painted um tema que subjaz a dança: as cenas e os movimentos. E não é preciso ser um crítico de arte para enxergar isso. Até porque estou me aventurando a falar algo sobre a arte que alguém desenvolveu com competência e não sou louca o suficiente para cometer despautérios em tempos tão côncavos. Mas é preciso ser um especialista para poder falar abertamente sobre o tema em questão (o que é o meu caso, já que sou psicóloga), porque sempre é difícil. O tema: A morte, esse ser misterioso, com aparência soturna e do qual normalmente temos medo porque anda à nossa espreita, estejamos atentos ou distraídos. 


Todos os dias vivemos algo que morre. Seja num objeto perdido, como recentemente foi o meu caso ao deparar-me com a perda, porque sou distraída, do meu querido livro “Felicidade Clandestina", Clarice Lispector (ainda estou de luto), ou de um ente querido ou seja na morte vivida quando perdemos um dia, estamos sempre diante dela, que não nos escapa. Fato: Nossos dias são passíveis de perdas e nós estamos passíveis a elas. Lidemos ou não com isso. 


Todos têm uma história de perda para contar – somos todos por elas constituídos. E exatamente por isso, podemos respeitar as diferentes formas que as pessoas encontram para lidar com este tema – porque a morte é feita de várias. Também de limites. Diversidade. 


Voltemos ao significante “perder o dia/tempo” – o que temos de mais precioso. Existem várias maneiras de perder um dia inteiro ou de perder a si mesmo num dia. Perder também é ganhar, de acordo (Marcelo Camelo, 2015). A esta altura, inclusive, suspeito que querer ganhar o dia é sempre uma triste ilusão. Se todo dia morre quando anoitece, todo dia se perde. 

TO-DO-SAN-TO-D-I-A-MOR-RE. Até parece piada. Mas não é. É esperança. 

Um jeito de fazer o dia viver (minha querida amiga Eliane Brum, foi quem deu-me a dica) é transformá-lo em história. História a ser contada. A história, essa criança-menina, que tem muita vida pela frente, quando ganha letra fica ainda mais viva. Estamos falando de algo raro: o difícil processo de re-significar os temas que para nós são os mais difíceis e tortuosos, entre eles a morte e o morrer. Perda. E é exatamente disso que falam as cenas, o corpo e os movimentos contidos na obra que estão condensados na obra Painted. É preciso ter clareza para enxergar quando há escuridão. A clareza não é inata, se desenvolve. E des-envolve. 


Concluindo (não gosto das conclusões. Primeiro porque são mentiras, segundo porque também são morte quando encerram em si outras possibilidades) se convivemos com o que nos assusta todos os dias, nossa própria possibilidade de morrer, somos em verdade muito corajosos desde o momento em que todas as manhãs vêm, silenciosamente, nos despertar. Se é que ainda temos coragem para dormir. 


No fim não falei quase nada da dança da "vida-morte-vida" (Clarissa Pinkola Estés que o diga) expressa tão lindamente no vídeo. É que não gosto de arriscar críticas. Arte para mim, tem só a função de ser. Ela mesma. Assim. Simples. Bonita. Expressiva.


sábado, 7 de novembro de 2015

Minha amizade com Lya Luft

e nossos diálogos... 


Minha amizade com Lya foi como muitas: Intensa e breve. Ela não era única... mas tinha sua singularidade. Era evidente. 

Lya me mostrou que existe um “Rio do Meio”, que engana quando parece ser fácil de atravessar e engole os desavisados; Falou-me que há um “Tigre na Sombra”; E, sob o ponto de vista dela, mostrou-me “A riqueza do mundo”. 

Depois de um tempo de convivência, apesar de dizer-se bruxa, percebi que Lya era por demais “de bem” o que, à época, não satisfazia e não se encaixava com meu lado “do mal”, esse aspecto da natureza humana que vive à nossa esquerda e que pulsa em todos. A complexidade é nota que compõe a melodia de todos os corpos, precisamos reconhecer. Ninguém é só "de bem", ninguém é só "do mal". Esse tema infinito, que somos nós, nunca é por completo dominado. Saber-se complexo é não saber-se. E o que fazemos com o que não sabemos? Ora, buscamos saber. Se com calma, com cuidado e sem julgamento prévio, melhor. 

Voltando a minha complexa amizade com Lya. 

Éramos muito diferentes, percebi. E só aí, na nossa diferença, pudemos nos (re)conhecer. O que é igual não reconhece a diferença porque pensa que o que vê diante de si é (ou deve ser) só uma continuidade de si mesmo. Como acontece com os bebês nas suas relações primeiras. Ser adulto é reconhecer diferenças. 

Por fim, minhas ideias e de Lya conflitaram: Crescemos e infelizmente nos afastamos, como acontece com os adultos quando pensam muito diferente e a convivência fica impossível. Coisas pequenas. Veja só. Coisas da vida. Nunca mais a vi. 


Hoje de manhã cedinho, enquanto passava os olhos pelos livros da minha estante em busca de um presente para uma pessoa, inesperadamente a reencontrei! E foi como naqueles reencontros surpreendentes quando, do nada, ao cruzarmos a esquina batemos de frente com o destino! Relê-la foi como aquelas surpresas boas que a vida, depois de um clima de suspense, autoriza àqueles que sabem esperar (coisa quase esquecida nos tempos atuais).

Considero importante, aqui, lembrar-me que saber esperar nada tem a ver com passividade, embora uma dose de passividade seja indispensável aos que se propõe a exercitar a paciência. Saber esperar é antes uma ação. 

Bom, no fim da minha busca por um presente para uma outra pessoa, a presenteada fui eu! Lya mostrou-me que apesar dos conflitos e das diferenças podemos SER presente quando relembrou-me de uma das nossas riquezas: Os nossos diálogos. 

Lya Luft e minha amizade com ela, vale ouro. 


“O que éramos então nós, criaturas inquietas e indagadoras? Éramos procura de significado e de parceria, ainda que não se resolvesse nada. A gente estava tentando”. 
(A riqueza do mundo, Lya Luft, 2011).
Grazielle Pansard, numa manhã de domingo. Novembro de 2015.  

Crônica Publicada na Revista Tie Break, edição 122. 
www.mundieditora.com.br

Fotografia: Grazielle Monica

segunda-feira, 2 de novembro de 2015

Poemas soltos

A chuva que era doce
de tanto cair
ficou salgada
e aí 
Fez-se mar. 

Por Grazielle Monica, nov. 2015. 

sexta-feira, 23 de outubro de 2015

A Menina Quebrada e minha amizade com Eliane Brum

Por GraziMonica Pansard, out. 2015. 


Conhecemo-nos em 2013, eu e Eliane. Foi um ano de intensas manifestações políticas e nesse contexto-enredo, percebi que tínhamos muito em comum. No entanto, como ser insignificante que me sei, passei sem ser notada por ela e, ambas, seguimos nossas vidas. Vez ou outra nos encontrávamos, ou melhor, eu a encontrava já que não sentia-me vista e sempre de novo, nesses nossos (des)encontros, percebia, intrigada, o quanto de mim havia nela. Só não suspeitei que durante esse tempo algo acontecia à Eliane também.

Li o artigo “ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente) do B”*  no final de setembro, às vésperas do “mês das crianças" e esse foi o momento derradeiro. Ainda não sabíamos, mas estávamos prestes a mudar o rumo das nossas trajetórias, antes separadas, para sempre. 

Voltando à coluna da Eliane, exposta em outubro deste ano no "El País". No início, não entendi o que ela queria me perturbando tanto com esse texto. Fiquei horrorizada com ele! Interrompi a leitura pelo menos três vezes, impactada com a força que tinham aquelas palavras sobre mim. Desde então ela não mais me deixou. Passei a pensar em Eliane e na sua coluna diariamente. Dormia e acordava pensando nela, atordoada com o peso e a leveza daqueles que possuem uma mente sã e que ela, sem que eu me desse conta, passava a compartilhar comigo.

Durante esse tempo, nesse último mês, era como se ela estivesse me pedindo algo, mas eu não tinha ideia do que era e isso me enlouquecia! Aí, no último fim de semana, quando estive em Curitiba sob o pretexto de assistir ao show do Los Hermanos (de “lavar a alma”, como disseram) sem que eu esperasse, lá estava ela. Não! Não no fantástico show do Los Hermanos na Pedreira Paulo Leminski. Numa livraria, o lugar onde se encontram os escritores. "A Menina Quebrada e outras colunas de Eliane Brum" (Editora Arquipélago) estava bem diante de mim, encarando-me, séria. E sem que ela precisasse proferir palavra, entendi o que estava me pedindo: Companhia. Logo a minha, que sempre soube insignificante. Nesse momento me senti importante. E gostei. Não hesitei. Não podia! Sem pensar duas vezes peguei "A menina quebrada" pelas mãos e saímos juntas da pequena livraria (a Arte & Letra Café, minha preferida em Curitiba). A partir daí, há exatamente uma semana, não nos separamos nem por um instante sequer. Ela vai comigo para todos os cantos e não me deixa nem mesmo na hora de dormir. Esse, aliás, é um dos momentos de que mais gostamos: Quando embarcamos nos nossos sonhos [...]

Desde que nos (des)encontramos de vez, já rimos e choramos juntas, ganhamos tempo em devaneios, trocamos ideias: banais e sérias. Discutimos quando percebemos nossas diferenças. Ela me ajuda a pensar quando estou em apuros e (ainda não descobri como ela faz isso) sustenta minha falta de sentido. Enfim, essa aproximação e intimidade toda ainda é nova pra mim e não sei que diabo pode sair disso. Talvez nos cansemos uma da outra. Talvez não. O que sei é que nesse momento estou adorando a companhia da "Menina Quebrada e outras colunas de Eliane Brum" e lentamente, porque sou demorada, passo a perceber, não sem espanto, que ela também está a gostar de mim. 


*BRUM, Eliane. ECA do B. Disponível em: <http://brasil.elpais.com/brasil/2015/09/28/opinion/1443448187_784466.html> Acesso em: 30 out. 2015. 

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

Marilú, quién eres tú?*

Diante da ciência da nossa insignificância (isso de inventar ciências é a marca maior da espécie homo sapiens), criei um jeito para me sentir importante: não sou eu quem encontra os livros, são eles que me encontram e os que ainda não me descobriram aguardam ansiosos por este momento!
O encontro com Marilú, o Livro, aconteceu em Santiago, a inesquecível capital chilena. Rende uma boa e longa história! Mas como não gosto de me estender em demasia, assim posso dar lugar também às histórias alheias (todos precisamos aprender a nos economizar um pouco), vou me limitar apenas a mencionar tal encontro, sem contá-lo de fato.
Noves fora agora estamos aqui, desfrutando da nossa presença. Marilú, o livro e eu. Leio devagar porque é uma leitura difícil. Tem uns desenhos para facilitar a compreensão. Ele exige toda minha atenção e não quer metades de mim. Peguei um bloco com uma página toda em branco para tomar notas – eles sempre incitam novas histórias, é preciso dar continuidade.
Marilú fala sobre a invisibilidade das pessoas da modernidade líquida do velho Bauman e também da cegueira diagnosticada por Saramago.
"E agora José? Para onde estamos indo?" Ela pergunta ao leitor. “Não se trata mais de um ensaio”, alerta, "é preciso saber enxergar". Diz que, cegados pela clareza, pelos excessos, caminhamos às cegas, na escuridão. "Qual a direção?" Ela tem dúvidas. "Ainda podemos ver alguém?", insiste.

Livros ensinam, por isso são também como mestres e amigos. Já nossos aprendizados são como pequenos bruxos do bem, com muitos poderes e que trazem sorte boa, além de proteção. Proteção e cuidados todos nós precisamos porque nessa aventura que é o aprendizado de si, vulgo autodescoberta, sabe-se lá o que podemos encontrar. Entre divagações, subjetivas, objetivas, uma coisa é certa: Diversidade e simplicidade, assim como nos ensina o livro da pequena Marilú, essa menina sabida.

Por Grazielle Pansard


Fotografia: Grazielle Monica 



*Obra referenciada: “Marilú, quien eres tú?” deTrinidad Castro com ilustrações de Fabiola Solano. Editorial Amanuta, Coleción Sin Límites.

Crônica publicada na Revista Valeu! A Revista Cultural do Vale Europeu, pág. 62, edição Julho de 2016. Também disponível em versão online www.revistavaleu.com.br 

domingo, 15 de março de 2015

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

As três Marias

Por Grazielle
Fevereiro, 2015.

Foi Bethania, a Maria,
Quem me apresentou a essa aí,
À Sophia.
Sophia de Mello Breyner Andresen, poeta portuguesa
Entre 1919 e 2004 nasceu viveu morreu.
Agora, todos os dias elas vêm me visitar
E formamos um trio:
Eu, Bethania e Sophia.
As três estrelas
As três Marias.

* * *

Procelária
(Por Sophia de Mello Breyner Andresen)

É vista quando há vento e grande vaga
Ela faz o ninho no rolar da fúria
E voa firme e certa como bala

As suas asas empresta
à tempestade
Quando os leões do mar rugem nas grutas
Sobre os abismos passa e vai em frente

Ela não busca a rocha o cabo o cais
Mas faz da insegurança a sua força
E do risco de morrer seu alimento

Por isso me parece imagem justa
Para quem vive e canta no mau tempo

sábado, 24 de janeiro de 2015

Excertos literários

O Rio Infecundo
Por Grazielle Monica, jan. 2015. 

Nas margens daquele leito jazia um rio. De olhos quietos, imóveis, uma senhora vertia lágrimas secas. À sua volta apenas imensidão árida. 

Nada. 

Sabiam-se ambos, o rio e a senhora, num deserto. O calor sufocava. Ávida e com sede, às margens do rio entregou-se. Era agora apenas um corpo, entregue. Sem a umidade de qualquer sentimento, seus dedos passeavam, desencontrados, por entre as fissuras do solo rachado do rio morto. Lembrou-se então de outro tempo. De quando daquele solo água pulsante brotava e, límpida, sua escuridão penetrava. Luz. Água que semeava.

Vida. 

Tempo outro. Sem pesar, sentiu o peso do tempo. Do tempo que passa. De passar pelo tempo. De passar. De ir. Dos que vão. De ter que ir. Foi! 

Colocou toda a sua miséria nas costas e, cambaleante, com passos errantes, desceu até o centro do rio-morto e começou a caminhar. Era ela toda agora um rio estéril. No seu íntimo, a esperança de que as águas voltassem a brotar e que, desavisadas, a levassem para outro lugar.

Número de visitas