sábado, 24 de janeiro de 2015

Excertos literários

O Rio Infecundo
Por Grazielle Monica, jan. 2015. 

Nas margens daquele leito jazia um rio. De olhos quietos, imóveis, uma senhora vertia lágrimas secas. À sua volta apenas imensidão árida. 

Nada. 

Sabiam-se ambos, o rio e a senhora, num deserto. O calor sufocava. Ávida e com sede, às margens do rio entregou-se. Era agora apenas um corpo, entregue. Sem a umidade de qualquer sentimento, seus dedos passeavam, desencontrados, por entre as fissuras do solo rachado do rio morto. Lembrou-se então de outro tempo. De quando daquele solo água pulsante brotava e, límpida, sua escuridão penetrava. Luz. Água que semeava.

Vida. 

Tempo outro. Sem pesar, sentiu o peso do tempo. Do tempo que passa. De passar pelo tempo. De passar. De ir. Dos que vão. De ter que ir. Foi! 

Colocou toda a sua miséria nas costas e, cambaleante, com passos errantes, desceu até o centro do rio-morto e começou a caminhar. Era ela toda agora um rio estéril. No seu íntimo, a esperança de que as águas voltassem a brotar e que, desavisadas, a levassem para outro lugar.

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