segunda-feira, 27 de julho de 2026

Antídoto Literário

 Durante muito tempo, desconfiei da leveza. 

Não formulei isso em voz alta. Apenas, por exemplo, escolhia livros que pareciam carregar sozinhos a gravidade da existência. Histórias sobre perdas, lutos, desencontros, memórias traumáticas. E estudando Psicologia passei anos aprendendo a escutar dores, conflitos, faltas. Aos poucos, fui acreditando que era ali, nas rachaduras da experiência humana, que a verdade morava.

Nas aulas de teatro, um professor insistia em me fazer rir.

Eu não entendia.

Hoje imagino que ele tenha percebido uma coisa antes de mim: eu confundia gravidade com profundidade.

“Para ser profundo não precisa ser triste”, ele me disse olhando nos olhos com o ar de deboche que lhe era costumeiro. Então, devolvendo o olhar, eu soltei da garganta a gargalhada presa num nó que ele parecia querer desatar. 

Confundir profundidade com gravidade é uma confusão curiosa. A gente olha para uma obra melancólica e já supõe que ela tenha algo mais a dizer. Como se a tristeza enxergasse mais longe. Como se o sofrimento fosse um atalho para a inteligência.

Foi lendo “Aos pés da letra” que percebi o antídoto de Gregório para esse mal. Ali um copo de leite derramado no chão poderia merecer tanta atenção quanto um tratado sobre a condição humana.

Não porque um copo de leite esconda uma grande metáfora. Mas porque a vida não respeita a hierarquia que inventamos para os nossos assuntos.

Ela apenas pergunta: há vida aqui?

Se houver, um copo de leite derramado basta.

Em Gregório, o humor é também uma forma de alcançar a profundidade. Gosto particularmente desse humor que ilumina, não daquele que banaliza. Em “Aos pés da Letra” encontrei uma pausa de a-pro-fundar para arejar. Sua leitura foi como um remédio - não contra a melancolia, que continua tendo o seu lugar, mas contra a ideia de que ela detém o monopólio do que é mais profundo. 

Durante muito tempo desconfiei da leveza. 

Hoje começo a desconfiar justamente da ideia de que só o peso das coisas é que revela a verdade. Às vezes, uma pitada de humor é suficiente para seguir adiante, sem deixar de ir fundo.




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